D.
Orani João Tempesta
Cardeal
Arcebispo do Rio de Janeiro
No dia 3 de maio de 1926, na época da festa
da Santa Cruz e do descobrimento do Brasil, o nosso antecessor, o Cardeal Dom
Sebastião Leme, instituiu a adoração perpétua na Igreja de Santana, proclamada
Santuário Nacional da Adoração Perpétua, em memorável cerimônia que foi
concluída com a seguinte oração pronunciada pelo cardeal de joelhos: “Tu,
Senhor Jesus, ficarás exposto dia e noite neste Santuário, até o fim dos
tempos, porque eu te prometo que os brasileiros estarão aqui ajoelhados, dia e
noite, até o fim dos tempos”.
Passaram-se 90 anos desse ato e a
Arquidiocese celebra neste ano mais uma Semana Eucarística, tendo como centro o
Santuário da Adoração Perpétua – neste ano com o tema: “Eucaristia, alimento da
Misericórdia”.
O Rio de Janeiro foi a primeira cidade a ter
um templo específico onde os fiéis podem adorar o Santíssimo Sacramento dia e
noite. Os Padres Sacramentinos, trazidos por D. Leme na mesma época, continuam
até hoje a animar a Guarda de Honra do Santíssimo Sacramento e a adoração
noturna (esta composta somente de homens).
Quando iniciamos a 90ª Semana Eucarística e
nos preparamos para a celebração da unidade, a Festa de Corpus Christi, é
sempre significativo retomar a importância de estarmos unidos e vivendo
fraternalmente em nosso país como um povo que tem a Eucaristia no centro de sua
vida.
Como conta a Tradição e os vários escritos de
domínio público, no final do século XIII surgiu em Liège, Bélgica, um Movimento
Eucarístico cujo centro foi a Abadia de Cornillon, fundada em 1124 pelo Bispo
Albero. Este Movimento deu origem a vários costumes eucarísticos como, por
exemplo, a Exposição e Bênção do Santíssimo Sacramento, o uso dos sinos durante
sua elevação na Missa e a festa de Corpus Christi.
Santa Juliana de Mont Cornillon, naquela
época priora da Abadia, foi a enviada de Deus para propiciar esta Festa. A
santa nasceu em Retines, perto de Liège, Bélgica, em 1193. Ficou órfã muito
pequena e foi educada pelas freiras Agostinianas, em Mont Cornillon. Quando
cresceu, fez sua profissão religiosa e mais tarde foi superiora de sua
comunidade. Morreu em 5 de abril de 1258, na casa das monjas Cistercienses, em
Fosses, e foi enterrada em Villiers.
Desde jovem, Santa Juliana teve uma grande
veneração ao Santíssimo Sacramento. E sempre esperava que se tivesse uma festa
especial em sua honra. O Papa Urbano IV estava em Orvieto, perto de Roma. Muito
próximo dessa localidade, em 1263 (ou 1264) aconteceu o famoso Milagre de
Bolsena: um sacerdote que celebrava a Santa Missa teve dúvidas de que a
Consagração da Hóstia fosse algo real. No momento de partir a Sagrada Hóstia,
viu sair dela sangue, que empapou o corporal (pequeno pano onde se apoiam o
cálice e a patena durante a Missa). A venerada relíquia foi levada em procissão
a Orvieto em 19 de junho de 1264, e até hoje lá se conserva o corporal na
Catedral, onde também se pode ver a pedra do altar de Bolsena, manchada de
sangue.
O Santo Padre, movido pelo prodígio e por
petição de vários bispos, fez com que a festa de Corpus Christi se estendesse
por toda a Igreja por meio da bula “Transiturus”, de 8 de setembro do mesmo
ano, fixando-a para a quinta-feira depois da então “oitava de Pentecostes”, e
outorgando muitas indulgências a todos que participassem da Santa Missa e
rezassem o ofício nesse dia.
Como outrora, Jesus nos recebe e nos fala do
Reino, cura as nossas enfermidades e nos dá de comer (Lc 9,11-17). No
Sacramento da Eucaristia podemos experimentar essa realidade: Deus está não
somente perto de nós, mas dentro de nós. “O Senhor esteja convosco” – nos diz o
sacerdote em cada celebração da Eucaristia. Agradecemos a Deus pela sua
presença, pelo seu amor, pela sua misericórdia, pela sua proximidade.
Essa solenidade é a celebração agradecida de
uma Presença. Nessa festa, a Mãe Igreja quer chamar a atenção de seus filhos
para a real presença de Cristo Jesus nas espécies eucarísticas do pão e do
vinho consagrados. Sim, nelas o Cristo morto e ressuscitado encontra-se tão
verdadeiramente presente! Ali já não há mais pão, não há mais vinho, mas o
Senhor Jesus, Cordeiro glorioso e imolado, no seu estado de eterna imolação por
nós.
O Cristo eucarístico é aquele que “tendo
amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Comungar seu
corpo e seu sangue é entrar neste caminho de Jesus, é ter em nós seus
sentimentos (Fl 2,5), é fazer nossas as suas opções, fazendo da existência uma
pró-existência, uma vida doada ao Pai e aos irmãos. “O cálice de bênção que
abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é
comunhão com o corpo de Cristo”? (1Cor 10,16).
O culto eucarístico, cujo momento supremo é,
sem dúvida, a celebração da Missa, traz a pessoa de Cristo, tão real e
verdadeiramente como está no Céu, ao simples quotidiano de cada um de nós.
Em nossa Arquidiocese, a Semana Eucarística,
que precede a festa solene, tem uma grande programação. No dia de Corpus
Christi teremos, às 10h, missa no Santuário da Adoração Perpétua, Igreja de
Santana, no Centro, encerrando a 90ª. Semana Eucarística. Às 15h – concentração
na Igreja da Candelária –, às 15h30 a Oração das Vésperas, seguida de procissão
solene até a Catedral de São Sebastião do Rio de Janeiro, quando haverá bênção
do Santíssimo Sacramento e Missa Solene.
Gostaria de fazer um apelo a todos os fiéis
que irão participar da procissão: tragam alimentos não perecíveis para que a
Caritas Arquidiocesana, dentro do Ano Santo extraordinário, como obra de
Misericórdia, encaminhe para os mais necessitados. Esse gesto concreto,
tradicional em nossa Arquidiocese, neste ano é também de todo o Regional Leste
1, e incentiva as paróquias para que assim o façam para ir ao encontro de
tantas pessoas necessitadas, desempregadas e outras. Se a Festa pública da
Eucaristia é a celebração da presença real de Jesus, que na Eucaristia se dá a
cada um de nós, vamos partilhar o que temos (e não a sobra) a quem mais
precisa.
Jesus Eucarístico é o tesouro da Igreja!
Adoremos este Santíssimo Sacramento, sinal de unidade, vínculo de caridade,
sacramento de piedade. Graças e louvores se deem a todo o momento ao Santíssimo
e Diviníssimo Sacramento. Jesus, Rei de misericórdia, eu confio em Vós!
Fonte:
http://cnbbleste1.org.br/2016/05/eucaristia-alimento-da-misericordia/
