Preservar a vida, desde a concepção até a
morte natural. Esse é um dos pontos defendidos pelo Congresso Latino-Americano
de Cuidados Paliativos, que acontece no Edifício São João Paulo II, na Glória,
promovido pela Academia Pontifícia para a Vida e a Arquidiocese do Rio de
Janeiro.
O terceiro dia de conferência, 28 de março,
teve início com a celebração eucarística presidida pelo arcebispo do Rio,
Cardeal Orani João Tempesta. A missa foi concelebrada pelo bispo auxiliar do
Rio, Dom Paulo Celso Dias do Nascimento, pelos membros da Academia Pontifícia
para a Vida monsenhor Andrea Ciucci e Ricardo Mensuali, do bispo auxiliar da
Diocese de La Plata, na Argentina, Dom Alberto Bochatey, além dos demais
sacerdotes e diáconos.
O Cardeal Orani frisou, na homilia, a
importância de a Igreja prosseguir na defesa da vida. “O Documento de Aparecida
lembra que vivemos uma mudança de época, com questionamentos importantes, os
quais somos chamados a, enquanto Igreja, refletir e responder de acordo com a
nossa fé. Vimos que, pela ação do Espírito Santo, falamos sobre a vida. Mas
isso não se faz sem dificuldades: ‘Se perseguiram a mim, perseguirão também a
vós’. Mesmo assim, a Igreja segue anunciando a vida, em diálogo com uma
sociedade em mudança, defendendo a vida desde a sua concepção até a morte natural.
Que neste congresso consigamos dar muitos frutos, inspirados pela Solenidade de
Pentecostes que se aproxima”, disse.
A primeira conferência do dia foi ministrada
pelo Andrea Ciucci, que representou o presidente da academia, Dom Vincenzo
Paglia, impossibilitado de conduzir a apresentação por motivos médicos.
Na ocasião, monsenhor Andrea leu a
apresentação de Dom Vincenzo, na qual o presidente destacou o avanço
tecnológico, tanto de maneira positiva quanto negativa. “Utilizando os meios
que estão em nosso alcance, o ser humano e, na realidade, todas as formas de
vida, podem ser analisadas, estudadas e manipuladas nos mínimos detalhes. A
possibilidade desse nível de manipulação das estruturas sensoriais, motoras,
neurocognitivas e geneticocognitivas abrem novos e indesejáveis horizontes, que
devemos defender intelectualmente, de maneira que sejam possibilitadas soluções
ético-humanísticas que estejam à altura das possibilidades tanto positivas
quanto negativas para a sociedade civil e, em geral, para todas as formas de
interação humana”, comentou.
Na conferência criticou-se, ainda, o desejo
de modificação do relógio biológico, sentimento impulsionado, justamente, pelo
avanço tecnológico. “A sociedade tecnologicamente avançada se prepara para dar
um salto qualitativo. A ciência de hoje em dia é capaz de intervir na vida de
cada indivíduo, nas gerações futuras, mas sem nenhuma melhoria à condição de
existência humana. O desejo do homem de dominar a natureza está se convertendo
no desejo de cada coração de controlar e potenciar o relógio biológico. Hoje em
dia, a única realidade em que vale a apena confiar parece ser a vida que o
homem acredita poder construir com suas próprias mãos. A promessa de uma vida
longa, uma 'imortalidade', é o argumento mais convincente que a sociedade
tecnológica pode oferecer”, completou.
Durante a segunda conferência, monsenhor
Ricardo Mensuali apresentou o White Book for Global Palliative Care
Advocate (Livro Branco para a Defesa Global de Cuidados Paliativos –
tradução literal), que é uma ferramenta para o auxílio na tomada de decisão
médica. “Nele, há recomendações dirigidas aos diferentes ambientes e
profissionais que lidam – ou pelo menos deveriam lidar – com os cuidados
paliativos, como médicos, políticos, administradores do bem público,
universidades, trabalhadores do setor da saúde, mas também são dirigidos aos
enfermos. Cada um de nós pode encontrar as nossas próprias páginas de acordo
com nosso trabalho”, comentou.
Monsenhor Mensuali também contou a motivação
para a publicação do livro. “Há três anos, houve um congresso da Associação
Mundial dos Médicos, em Roma. Na ocasião, o presidente nos pediu para realizar
o congresso no Vaticano. Ele nos disse que dentro da associação, que tinha
médicos de diferentes visões, havia uma tendência: muitos queriam que a
eutanásia ganhasse espaço e isso afetaria as legislações de diversos países. O
intuito dele era fazer com que a palavra da Igreja pudesse alcançar esses
médicos, uma vez que o trabalho deles é salvar vidas, cuidar dos doentes e,
portanto, evitar a morte”, contou.
O sacerdote ainda acrescentou que “o Papa
Francisco enviou uma mensagem para aquele congresso que dizia: 'Precisamos de
sabedoria porque, hoje, é cada vez mais forte a tentação de insistir em
tratamentos que provocam fortes efeitos no corpo humano, mas que nem sempre
beneficiam o bem integral da pessoa'. Os cuidados paliativos são, portanto, a
nossa resposta. A Igreja tem há séculos o papel de estar ao lado daquele
enfermo. Esse papel precisa ser fortalecido e aprofundado”, concluiu.
O início dos trabalhos no período da tarde
foi conduzido por Dom Alberto Bochatey, bispo auxiliar de La Plata, na
Argentina. Em sua palestra, Dom Alberto apresentou os aspectos
éticos-existenciais sobre morte e o morrer, destacando ainda o papel da Igreja
no apoio as famílias que tratam de parentes em estado vegetativo ou terminal.
As ações positivas, de acordo com o bispo, consistem em “sustentar as famílias,
não deixando-as sozinhas com seus dramas humanos, psicológicos e econômicos”,
explicou. Padre Aníbal encerrou o painel abrindo o debate para o pública após
breve reflexão.
