Retiro Arquidiocesano

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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

É Natal!

D. Orani João Tempesta
Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro

Eis o mistério da festa do Natal: nesta criança nascida para nós, Deus visitou o Seu povo, Deus entrou na humanidade! Que mistério tão profundo: Ele, sem deixar de ser Deus, tornou-se homem verdadeiramente. Veio desposar a nossa condição humana, veio caminhar pelos nossos caminhos, veio experimentar a dor e a alegria de viver humanamente: amou com um coração humano, sonhou sonhos humanos, chorou lágrimas humanas, sentiu a angústia humana… Ele, Filho eterno do Pai, tornou-Se filho dos homens para salvar toda a humanidade, “tornou-se de tal modo um de nós, que nós nos tornamos eternos”!
Hoje, cumpriram-se as Escrituras: o Dia tão esperado brilhou no meio da noite. Hoje, “o povo, que andava na treva”, a humanidade perdida e confusa, “viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte”, para nós, que temos sempre de lutar contra tantas e tantas mortes, “uma luz resplandeceu”! Nesta Noite Santa, podemos comemorar, alegrarmo-nos como os que colhem depois do trabalho e do suor do plantio, por que algo inacreditável, algo que parece um sonho, um conto de fadas, nos aconteceu! Escutai, escutai: “Nasceu para nós um Menino, foi-nos dado um Filho; Ele traz nos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: Conselheiro Admirável, Deus Forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da Paz. Grande será o seu reino e a paz não há de ter fim… a partir de agora e por todo sempre”! Eis a graça, a glória, o mistério desta Noite!
A Liturgia não evoca apenas os mistérios de Cristo, mas vive-os no presente. Cristo manifesta-se hoje, quando a Igreja, reunida, comemora os mistérios de Sua presença na história. Importa, pois, viver o nascimento de Cristo; importa ver como Cristo continua a nascer e manifestar-Se em nós e nos outros hoje.
Estejamos atentos: por que Aquele que vem como luz no meio da noite, vem pobre, humilde, pequeno, frágil… e somente poderá ser reconhecido se estivermos atentos: atentos aos Seus sinais, atentos às pequenas coisas, atentos aos irmãos mais frágeis, atentos ao que no mundo deprecia como sem valor, sem importância, sem poder… O Menino pode ser encontrado e reconhecido pela Virgem Maria, pelo humilde José, pelos pastores…
Nascemos com Cristo no Natal – como dizia Orígenes –: “que me adianta Cristo ter nascido em Belém, se Ele não nascer no meu coração”? Comemorando o nascimento de Cristo, a Igreja, cada um de nós, é chamado a nascer também. No Natal vivemos o mistério do encontro entre o céu e a terra, entre o divino e o humano. Deus torna-se humano para que o homem se torne divino. Esta realidade vem expressa de modo maravilhoso no Primeiro Prefácio do Natal: “Quando o vosso Filho se fez homem, nova luz da vossa glória brilhou para nós, para que, vendo a Deus com nossos olhos, aprendêssemos a amar o que não vemos”. Também no Terceiro Prefácio vem muito bem expresso o mistério do Natal: “Por Ele, realizou-se neste dia o maravilhoso encontro que nos fez renascer, pois, enquanto o vosso Filho assume a nossa fraqueza, a natureza humana recebe uma incomparável dignidade; torna-se de tal modo um de nós que nos tornamos eternos”.
A eternidade penetrou no tempo, para que o tempo pudesse mergulhar na eternidade. Isso deve ser também uma realidade em nossas vidas. O que se dará de vários modos: vivendo, em espírito de acolhimento, nossa humanidade contemplada e aceita na de Cristo; reconhecendo o Menino de Belém como nosso Salvador; participando dos Sacramentos Pascais nas festividades de Natal; realizando em nós a humilde atitude de serviço que Cristo manifestou, assumindo a condição de criatura.
Diante das trevas da violência, da intolerância, das insídias da morte, da corrupção, do descaso para com os enfermos, para com os pobres e humildes nasce uma grande luz, a luz divina, que é o Menino Deus, em tudo igual a nós, exceto no pecado, para nos salvar. Ele vem impregnar a sociedade dos mais especiais e evangélicos sentimentos de fraternidade, de comunhão, de solidariedade, de partilha, de misericórdia e de paz. O Menino Deus é o Príncipe da Paz que nos convida a sermos missionários da paz Divina!
Cada um poderá descobrir como Cristo pode nascer em nós no tempo de Natal, em nossa vida. Não nos esqueçamos de que neste Natal o mais importante é que consigamos ir até Belém, participar daquela cena entranhável e dar um presente ao Menino Jesus: vejamos o rosto de Deus em cada rosto humano, e presenteemos as pessoas com o nosso sorriso, a nossa generosidade e o nosso espírito de partilha. Não nos esqueçamos de dar aos nossos parentes, amigos e colegas de trabalho o presente que ninguém pode tirar de nós: caminhemos ao presépio, contemplemos o Cristo nascido para nos salvar, e ofereçamos aos nossos queridos irmãos as orações fervorosas, pedindo as graças necessárias para no Natal comemorar a presença de Deus em nossa história, Jesus Cristo, o rosto visível do Deus invisível. Dessa forma iremos ver que é possível vencermos o ódio, a maldade humana, a violência e vivermos na harmonia, na concórdia e na constância da paz divina.
Feliz Natal! Natal Feliz é Natal com Cristo. Vamos anunciar a proximidade de Deus encarnado em uma criança a todo o mundo, testemunhando que Jesus está no meio de nós! E, assim, cantando para o Céu, vivamos na Terra a alegria do júbilo natalino: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados”!

Fonte: http://arqrio.org/formacao/detalhes/1573/e-natal