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sábado, 2 de maio de 2020

Caminhos da catequese em tempos de pandemia

A pandemia limitou a vida das comunidades paroquiais e das atividades pastorais. Um dos grupos mais afetados, inicialmente, foi a Iniciação Cristã, com seus catequizandos em preparação para receber os sacramentos da Confissão, da Primeira Comunhão e do Crisma.

As paróquias tiveram que se reiventar. Assim aconteceu com a Iniciação Cristã da Paróquia São Paulo Apóstolo, em Copacabana. “Vendo que os dias estavam passando, já que mal havíamos iniciado o ano e já tivemos que parar atividades, estando com uma turma de 1ª etapa finalizando o livro e da 2ª etapa nos últimos encontros para receberem a Primeira Eucaristia, começamos a ficar preocupados”, contou os coordenadores Marcelo Sampaio e Cristina de Andrade Pinto, da catequese, pré, 1ª etapa e 2ª etapa.
A catequese na Paróquia São Paulo Apóstolo precisou ser reinventada

Em conjunto, a equipe de catequistas refletiu que a evangelização é permanente, e por isso, não pode parar. Era preciso manter a chama de Cristo acesa nos corações das crianças e, principalmente, dos pais e responsáveis. A equipe também refletiu que o tempo é curto e que a evangelização acontecia somente aos domingos.

Ainda que muitos pais não se dediquem tanto em assumir a missão de primeiros catequistas em casa. “Corríamos o risco das crianças acabarem se distanciando do grupo catequético, podendo esquecer as informações recebidas ao longo do ano, e perderiam também o costume de se encontrar com o sagrado”, contou Marcelo.

Pensando na situação, surgiu a ideia do que poderia ser feito de concreto que envolvesse a catequese em família. Seria preciso manter a chama da fé acesa e alimentar o conhecimento dos catequizandos. Desta forma, seria um estímulo para que todos pudessem continuar conectados com a fé, com Jesus Cristo. “Partilhamos, via online, o projeto com nosso pároco, padre Paulo de Tarso Rodrigues. Ele nos acolheu e abençoou nossa iniciativa, e colocamos as mãos na massa”, disse Cristina. Marcelo Sampaio contou que o primeiro passo foi comunicar aos catequistas o que seria feito, pedindo a adesão de todos, com o envio de materiais, trabalhos e tudo o que gostariam que fosse divulgado. 
Os catequizandos se alegraram com a catequese em casa

Por meio do aplicativo WhatsApp, acrescentou Cristina, foi anunciado aos pais e responsáveis que a catequese teria continuidade, porém de forma online. “Todos ficaram alegres e aceitaram a proposta. Dissemos que não seria substituição da catequese presencial, mas uma outra forma de evangelizar, até que nos encontrássemos de novo na paróquia”, disse Marcelo.

“Desde então, estamos enviando para o grupo dos pais e responsáveis páginas do livro de catequese a serem trabalhadas em casa, com a família, além de atividades extras e vídeos.Estamos ainda pedindo a participação nas missas online de nossa paróquia ou pela TV”, acrescentou Cristina.
Ações para manter a chama da fé nas crianças

Uma das sugestões foi as confecções de cartazes e cartão de Feliz Páscoa, distribuídos aos paroquianos e nos demais grupos de WhatsApp da paróquia. “A cada semana, as crianças nos enviam o que foi feito, e nós vamos comentando, tirando dúvidas dos pais e pedindo para que todos trabalhem juntos”, disse Marcelo.

“Estamos percebendo a importância do envolvimento da família neste processo de iniciação à vida cristã. Têm sido bastante gratificantes estes encontros com Cristo”, completou Cristina.

Fonte: Jornal Testemunho de Fé, edição 3 a 9 de maio de 2020 - pág. 8

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Dia do trabalhador

Proclamando São José como protetor dos trabalhadores, a Igreja quis demonstrar que está ao lado deles, os mais oprimidos, dando-lhes como patrono o mais exemplar dos homens, aquele que aceitou ser pai adotivo de Deus feito homem, mesmo sabendo o que poderia acontecer à sua família.



Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro

Iniciamos o mês de Maria com uma comemoração universal: o dia do trabalhador! Esta data é comemorada em todo o mundo e se apresenta como um clamor a reconhecer todas as circunstâncias que envolvem a realidade laboral, principalmente aquelas situações de exploração do trabalho e a realidade do crescente desemprego. Recordamos e rezamos por todos aqueles homens e mulheres que se esforçam na luta pelo pão de cada dia, com honestidade e valentia, fazendo frutificar na terra os dons recebidos por Deus manifesto em suas habilidades e colhendo os frutos do suor do seu rosto. O trabalho foi desde o princípio um preceito para o homem, uma exigência da sua condição de criatura e expressão da sua dignidade. E a forma como colabora com a Providência Divina sobre o mundo.

Para celebrar este dia, de modo próprio, a Igreja introduziu a memória facultativa de São José Operário. A solenidade do Pai Adotivo de Jesus ocorre no dia 19 de março, quando ele é focalizado como Padroeiro da Igreja. A 1º de maio nos é apresentado o Homem do Trabalho, pobre, que ganhou o pão de cada dia com o suor de seu rosto. O exemplo de São José é contemplado pelo do próprio Jesus, que até os 30 anos de idade trabalhou também como operário.

O Patrocínio de São José neste dia vem exatamente pelas várias vezes em que a Escritura e a Tradição da Igreja ressaltam, junto com a humildade e o silencio de José, seu trabalho. O Justo José é o modelo ideal de operário e de homem que viveu a caridade. Ele sustentou sua família durante toda a vida com o trabalho de suas próprias mãos; cumpriu sempre seus deveres para com a comunidade; ensinou ao Filho de Deus a profissão de carpinteiro e, desta maneira suada e laboriosa, permitiu que as profecias se cumprissem e seu povo fosse salvo, assim como toda a Humanidade. 

Proclamando São José como protetor dos trabalhadores, a Igreja quis demonstrar que está ao lado deles, os mais oprimidos, dando-lhes como patrono o mais exemplar dos homens, aquele que aceitou ser pai adotivo de Deus feito homem, mesmo sabendo o que poderia acontecer à sua família. José lutou pelos direitos da vida do ser humano e, agora, coloca-se ombro a ombro na luta pelos direitos humanos dos trabalhadores do mundo por meio dos membros da Igreja, que aumentam as fileiras dos que defendem os operários e seu direito a uma vida digna.

O Papa Francisco, dentre os vários pronunciamentos que fez sobre a realidade concreta do trabalho, assim diz em um deles: “Por conseguinte, é uma prioridade cristã valorizar o trabalho, e inclusive uma prioridade do Papa. Porque se origina daquele primeiro mandamento que Deus deu a Adão: «Vai, faz crescer a terra, trabalha a terra, domina-a». Sempre houve uma amizade entre a Igreja e o trabalho, a partir de Jesus trabalhador. Onde houver um trabalhador ali estarão o interesse e o olhar de amor do Senhor e da Igreja. Penso que isto é claro.” (Visita pastoral a Gênova, 27 de maio de 2017).

Na sua audiência geral do ano de 2013, realizada no dia 1º de maio, o Papa dirige um apelo ao poder público a considerar a dignidade do trabalho do homem: Eu gostaria de estender a todos o convite à solidariedade e, aos chefes do setor público, convidá-los ao encorajamento, a fazer de tudo para dar um novo impulso ao emprego, isso significa se preocupar com a dignidade da pessoa mas, acima de tudo, vos exorto a não perderem a esperança; São José também teve momentos difíceis, mas nunca perdeu a confiança e soube superá-los, na certeza de que Deus não nos abandona. E agora gostaria de falar especialmente a vocês, meninos e meninas, a vocês jovens: se esforcem em suas tarefas diárias, no estudo, no trabalho, nas relações de amizade, contribuindo com os outros, o vosso futuro também depende de como vocês vão viver esses preciosos anos de vida. Não tenham medo do compromisso, do sacrifício e não olhem para o futuro com medo, mantenham viva a esperança: há sempre uma luz no horizonte.” (http://www.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2013/documents/papa-francesco_20130501_udienza-generale.html).

Peçamos a intercessão de São José para realizar bem o ofício que nos ocupa tantas horas: as tarefas domésticas, profissionais, o escritório, o balcão, a cozinha, o computador, a faxina, o trabalho de carregar pacotes ou de cuidar da portaria de um edifício. A grandeza de um trabalho não reside no seu status ou na quantidade do salário, mas na sua capacidade de nos aperfeiçoar humana e, sobrenaturalmente, nas possibilidades que nos oferece, de levar adiante a família e de colaborar nas obras em favor dos homens, na ajuda que através dele prestamos à sociedade.

Nestes tempos de instabilidade econômica, peçamos especialmente a São José operário por todos os que sofrem pelo drama do desemprego e por todos aqueles que tiveram drasticamente seu salário reduzido. Que o guardião da Sagrada Família siga intercedendo por nossas necessidades ao Pai e clame a Cristo por nós para que não nos falte o pão de cada dia.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Papa: invocar sempre São José, principalmente nos momentos difíceis


"Invoquem sempre São José, especialmente nos momentos difíceis, e confiem a existência a este grande Santo”, pediu Francisco, convidando os fiéis italianos a aderiram à iniciativa convocada pela Conferência Episcopal local para um momento de oração no dia de protetor da família.


Ao final da Audiência Geral, o Papa recordou que na quinta-feira (19/03) a Igreja celebra a solenidade de São José.


“Na vida, no trabalho, na família, na alegria e na dor ele sempre buscou e amou o Senhor, merecendo nas Escrituras o reconhecimento de homem justo e sábio. Invoquem-no sempre, especialmente nos momentos difíceis, e confiem a existência a este grande Santo.”


Por ocasião da festa de São José, a Igreja italiana convocou os fiéis a um momento de oração por todo o país, que está sofrendo com o coronavírus.


O convite a todas as famílias, fiéis e comunidades religiosas é se unir espiritualmente às 21h para rezar o Terço, com os mistérios luminosos.


“Eu os acompanharei. Ao rosto luminoso e transfigurado de Cristo e ao seu Coração, nos conduza Maria, Mãe de Deus, saúde dos enfermos, à qual nos dirigimos com a oração do Terço, sob o olhar amoroso de São José, protetor da Santa Família e das nossas famílias. E peçamos que Ele proteja as nossas famílias . De modo especial, que proteja os doentes e as pessoas que estão cuidados dos doentes: médicos, enfermeiros, enfermeiras e os voluntários, que arriscam a vida neste serviço.”


segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Paróquia, casa de portas abertas!

D. Orani João Tempesta
Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro

Com a celebração do Rio Celebra, no dia 09 de novembro, celebramos a 35ª Assembleia Arquidiocesana da Iniciação à vida Cristã, que tem como tema: “Paróquia, casa de portas abertas” (Conforme documento 109 CNBB).
Lembramos a importância dos Sacramentos da Iniciação à Vida Cristã. Ensina o Catecismo da Igreja Católica que: “Através dos sacramentos da iniciação cristã – Batismo, Confirmação e Eucaristia são lançados os alicerces de toda a vida cristã. «A participação na natureza divina, dada aos homens pela graça de Cristo, comporta uma certa analogia com a origem, crescimento e sustento da vida natural. Nascidos para uma vida nova pelo Batismo, os fiéis são efetivamente fortalecidos pelo sacramento da Confirmação e recebem na Eucaristia o Pilo da vida eterna Assim. por estes sacramentos da iniciação cristã, eles recebem cada vez mais riquezas da vida divina e avançam para a perfeição da caridade» (3).”(cf. Catecismo da Igreja Católica 1212).
A Igreja no Brasil, pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em 1973 publicou o Rito de Iniciação Cristã de Adultos – RICA - A publicação do RICA, com uma segunda edição no ano 2001, que, sobretudo, enriqueceu o vocabulário eclesial com uma expressão quase que esquecida, mas tão antiga quanto a Igreja: a Iniciação Cristã. Os fiéis que queiram adquirir o RICA podem ter uma visão da beleza de seu conteúdo pelo sítio https://bibliaecatequese.com/rica-rito-da-iniciacao-crista…/.
Em nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, como gesto concreto nessa linha catecumenal, foi publicado o Diretório Arquidiocesano da Iniciação Cristã. Rio de Janeiro (Nossa Senhora da Paz Livraria e Editora, 2008, 80 pp). Um documento que foi e continua sendo uma referência iluminadora da ação evangelizadora em nossa Igreja. Além disso temos uma coletânea de livros catequéticos próprios usando a linha da iniciação à vida cristã.
A CNBB, repercutindo o Diretório Nacional de Catequese e, sobretudo, a Conferência de Aparecida, tomou como tema prioritário da 47ª. Assembleia Geral de Aparecida, de 2009, a questão da iniciação da vida cristã.
Na linha do que ensina o Código de Direito Canónico e do Rito da Iniciação Cristã dos adultos (RICA) lembramos que o vetor principal deste itinerário formativo procura concretizar uma autêntica “conversão pastoral” na medida em que faz da “dimensão sobrenatural da vida cristã” o critério da ação pastoral. Procura-se não só recuperar a ordem tradicional dos Sacramentos da Iniciação cristã, como valorizar a dimensão da Graça presente nos Sacramentos. Neste sentido, a celebração dos Sacramentos é vista como ponto de partida da vida cristã, entendida, assim, como um dinamismo de reconhecimento e desenvolvimento da Graça.
A iniciação cristã para os já batizados consiste em desenvolver os germens da fé já infundidos no sacramento do Batismo. Para os não batizados é o processo que conduz ao mergulho total (batismo) no mistério de Cristo Jesus. Nesse processo iniciático estão incluídos, quer as ações litúrgico-rituais (celebrações, ritos, entregas, escrutínios...) como o processo catequético no sentido estrito de ensinamento e reflexão sobre a sabedoria evangélica, a doutrina de Jesus Cristo e os exercícios de vida cristã em vista da assimilação completa do mistério cristão. O complexo processo que, desde o século II, prevaleceu na Igreja para iniciar os novos membros nos mistérios da fé, recebeu o nome de Catecumenato.
Para alguns autores o “catecumenato” deveria significar apenas o “segundo tempo” da iniciação cristã, o mais longo e mais propriamente catequético. Entretanto, a maioria usa o termo “catecumenato” para significar todo o processo da iniciação cristã. O neocatecumenato é um itinerário de vida cristã para os já batizados, com estatutos próprios, nascido na Espanha e está muito presente no Brasil. Não se deve, pois, confundir catecumenato como o caminho neocatecumenal.
O caminho da iniciação da vida cristã deve ser vivido em conformidade com o que pede o Documento de Aparecida: “ser cristão não é uma carga, mas um dom: Deus Pai nos abençoou em Jesus Cristo”. “A alegria do discípulo é antídoto frente a um mundo atemorizado pelo futuro e oprimido pela violência e pelo ódio. A alegria do discípulo não é um sentimento de bem-estar egoísta, mas uma certeza que brota da fé, que serena o coração e capacita para anunciar a boa nova do amor de Deus. Conhecer Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber e dar; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (DAp, 29).
Nesse sentido, em que hoje devemos estar atentos em ir ao encontro de todas as pessoas, conforme nos pede o Papa Francisco, buscando levar o Evangelho em todas as periferias existenciais, queremos refletir sobre a Paróquia, casa de portas abertas.
Quando falamos que a “Paróquia, casa de portas abertas” não significa que devemos esperar que os fiéis acorram para os sacramentos. Nós devemos ir ao encontro de todos, para levar a Boa Nova do Evangelho e para testemunhar, pela vivência dos sacramentos e sacramentais, a santidade de Deus, da Igreja e de cada um de nós. Por isso vamos ao encontro dos que foram batizados e não receberam a Eucaristia e a Crisma, ou daqueles muitos que nem foram batizados e precisam iniciar todo o itinerário da iniciação cristã.
O Papa Francisco, já nos Sínodo sobre as Famílias, em 2015, ele expressava que “uma igreja com as portas fechadas trai a si mesma e à sua missão, em vez de ser ponte, converte-se em barreira”. “As paróquias têm de estar em contato com os lares, com a vida das pessoas, com a vida do povo. Têm de ser casas onde a porta esteja sempre aberta para ir até os demais. E é importante que a saída siga uma clara proposta de fé.” “Trata-se de abrir as portas e deixar que Jesus saia afora com toda a alegria de sua mensagem. Por isso, não nos deixemos roubar a alegria evangelizadora! Por favor, não nos deixemos roubar a alegria evangelizadora.” “Peçamos por nossas paróquias, para que não sejam escritórios, mas que, animadas por um espírito missionário, sejam lugares de transmissão da fé e testemunho da caridade”, pede o Papa Francisco. (https://pt.aleteia.org/…/papa-francisco-pede-que-paroquias…/, último acesso em 08 de novembro de 2019)
Recentemente, o Santo Padre, o Papa Francisco, nos dá uma orientação de como devem ser as nossas Paróquias: “A comunidade eclesial descrita no livro dos Atos dos Apóstolos vive das muitas riquezas que o Senhor põe à sua disposição — o Senhor é generoso! — experimenta crescimento numérico e muita efervescência, apesar dos ataques externos. Para nos mostrar esta vitalidade, Lucas, no Livro dos Atos dos Apóstolos, indica-nos também lugares significativos, por exemplo o pórtico de Salomão (cf. At 5, 12), ponto de encontro dos crentes. O pórtico (stoà) é uma galeria aberta que serve de abrigo, mas também de ponto de encontro e testemunho. Lucas, de facto, insiste nos sinais e maravilhas que acompanham a palavra dos Apóstolos e no cuidado especial dos doentes aos quais eles se dedicam. No capítulo 5 dos Atos, a Igreja nascente é mostrada como um «hospital de campo» que acolhe os mais débeis, isto é, os doentes. O sofrimento deles atrai os Apóstolos, que não possuem «nem prata nem ouro» (At 3, 6) — assim diz Pedro ao coxo — mas sentem-se fortes pelo nome de Jesus. Aos seus olhos, como aos olhos dos cristãos de todos os tempos, os doentes são destinatários privilegiados da boa nova do Reino, são irmãos nos quais Cristo está presente de modo especial, para que sejam procurados e encontrados por todos nós (cf. Mt 25, 36.40). Os doentes são privilegiados para a Igreja, para o coração sacerdotal, para todos os fiéis. Não devem ser descartados, pelo contrário, devem ser curados, devem ser cuidados: são objeto de preocupação cristã” (cf.http://w2.vatican.va/…/papa-francesco_20190828_udienza-gene…, último acesso em 08 de novembro de 2019)
A acolhida de todos, o respeito, a escuta e a proximidade é o único caminho para que levemos a alegria do Evangelho a todos os homens e mulheres. Uma Igreja acolhedora, missionária, em saída no abraço fraterno da misericórdia e da compaixão.
Com esta nossa Assembleia queremos reafirmar nosso compromisso de “Paróquias, casas de portas abertas” aonde todos, particularmente os mais sofridos, doentes, excluídos, marginalizados, que vivem em situação de risco ou de dificuldades de toda sorte sejam acolhidos. Que a escuta de todos, sem exceção, e a acolhida generosa sejam as marcas de todas as Paróquias em nossa Arquidiocese, assim seja!


Foto: Assis Freitas

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Início do centenário de Dom Eugenio

D. Orani João Tempesta
Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro

Foram abertas, no dia 8 de novembro, as comemorações do centenário de nascimento de Sua Eminência, o Senhor Cardeal Eugenio de Araujo Sales, com celebração eucarística na cripta de nossa Catedral, seguida de exposição de fotografias. Filho do desembargador Celso Dantas Sales e de Dona Josefa de Araújo Sales (Teca), nasceu no dia 8 de novembro de 1920 na Fazenda Catuana e foi batizado na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Guia, no município de Acari (RN), em 28 de novembro de 1920. De família muito católica, era bisneto de Cândida Mercês da Conceição, uma das fundadoras do Apostolado da Oração na cidade de Acari.
Dom Eugenio realizou seus primeiros estudos em Natal, inicialmente em uma escolar particular, depois no Colégio Marista e finalmente ingressou, em 1931, no Seminário Menor. Realizou seus estudos de filosofia e teologia no Seminário da Prainha, em Fortaleza (CE), no período de 1931 a 1943. Depois dos estudos seminarísticos, foi ordenado sacerdote pela imposição das mãos de Dom Marcolino Esmeraldo de Sousa Dantas, bispo diocesano de Natal, no dia 21 de novembro de 1943, na mesma igreja onde recebera o Batismo. Viveu 58 anos de episcopado, 30 deles à frente da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, e faleceu no dia 9 de julho de 2012 aos 91 anos de vida. A sua sepultura está na cripta da Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro. O lema episcopal de Dom Eugenio era: “Impendam et Superimpendar” (cf. 2 Cor. 12, 15). O lema tem como divisa de ministério episcopal o que diz a Palavra de Deus: “Quanto a mim, de bom grado despenderei, e me despenderei todo inteiro, em vosso favor”.
Ao celebrar solenemente seus 90 anos tive a grata alegria de entregar para o Cardeal Eugenio Sales a carta que o Papa Bento XVI o enviava, em que destacava: “Fiel ao seu lema: ‘Impendam et superipemdar’, soube gastar-se inteiramente por aqueles que Deus lhe havia confiado, num fecundo ministério vivido em profunda comunhão com o Sucessor de Pedro, sendo até hoje um referencial para toda a Igreja no Brasil, principalmente para as novas gerações de ministros ordenados”, expressou o Pontífice. O Papa enviou ao purpurado a sua estima e afeto, esperando que sejam sentimentos que infundam alegria e serenidade em seu ser. “Neste sentido invoco sobre a sua pessoa as mais seletas graças e consolações divinas, para continuar a fazer a vida motivo e meio de glorificar a Deus na sua condição de emérito Pastor da Igreja”, declarou o Santo Padre.
Tomando conhecimento do falecimento do Cardeal Sales, o Papa Bento XVI enviou um telegrama que ressaltamos: “Quero manifestar meus pêsames aos bispos, seus auxiliares, ao clero, às comunidades religiosas e aos fiéis da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, que tiveram por três décadas um intrépido pastor”... “Foi um autêntico testemunho do Evangelho em meio a seu povo. Dou graças ao Senhor por ter dado à Igreja pastor tão generoso”... Em 70 anos de sacerdócio e 58 anos no episcopado, sempre quis indicar o caminho da verdade na caridade e servir à comunidade, prestando particular atenção aos mais desfavorecidos, fiel a seu lema episcopal: ‘Impendam et superimpendar’”.
O Cardeal Eugenio Sales em seu testamento deixou escrito que a fidelidade ao Santo Padre deve nos acompanhar até depois da morte: “Quero morrer em comunhão com o Santo Padre”. Realmente esta comunhão, este espírito eclesial profundo, que o acompanhou durante a sua vida, foi reafirmado quando o Papa Paulo VI, em 1969, elevou o arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil, Dom Eugenio Sales, para o Sacro Colégio Cardinalício.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Carta Aberta pelo dia 1º de maio de 2019 aos trabalhadores e trabalhadoras do Rio de Janeiro

Neste 1º de maio, Festa de São José Operário, queremos saudar os trabalhadores e trabalhadoras, bem como reafirmar o compromisso com a dignidade e a grandeza da pessoa humana e do trabalho.
Continuamos a viver sob a luz que o tema da Campanha da Fraternidade deste ano nos traz para as muitas relações que devem ser criadas em nossa sociedade. Com o tema: “Políticas Públicas e Fraternidade” e o lema: “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1,27), somos convidados a perceber como todos, governantes e povo em geral, devem priorizar o bem comum e não os interesses mesquinhos dos que só se preocupam consigo mesmo, querendo apenas levar vantagens. A estes, bem sabemos, pouco importam a vida e a dignidade das pessoas. Pois, embora aquilo que se entende por política pública seja primordialmente uma responsabilidade do Estado, cuja finalidade é garantir o bem comum dos cidadãos, todas as pessoas e instituições devem se sentir protagonistas das iniciativas e ações que promovam “o conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição” (“Gaudium et spes”, 74).
Esta é a data em que recordamos o esforço dos trabalhadores por melhores condições de vida no mundo do trabalho. Foi graças à coragem e persistência de muitos trabalhadores que os direitos e benefícios foram conquistados. Como nos lembra o Documento de Aparecida, “são os leigos, conscientes de seu chamado à santidade em virtude de sua vocação batismal, os que têm de atuar à maneira de um fermento na massa para construir uma cidade temporal que esteja de acordo com o projeto de Deus” (n. 505).
Diante das últimas tragédias em nossa cidade e país, como negar a quantidade de pessoas que perdem a vida, os seus empregos, o direito à moradia digna, à saúde e à educação por conta da corrupção, dos desvios de recursos públicos e do desmando das classes governantes? Tudo isso corrói a esperança e a vida, acentuando o clima de violência, insegurança e desamparo na vida de tanta gente!
Quando se abandona a lei do amor, acaba por se afirmar a lei do mais forte sobre o mais fraco. O pecado habita no coração do ser humano (cf. Mc 7, 20-23) e se manifesta como avidez, ambição desmedida de bem-estar, desinteresse pelo bem dos outros. Leva à exploração da criação (pessoas e meio ambiente), gerando aquela ganância insaciável que considera todo o desejo um direito e que, mais cedo ou mais tarde, acabará por destruir inclusive quem está dominado por ela.
Em nosso país não é diferente. A ganância, a ambição e a corrupção fazem surgir a cada época novas formas de acumulação e especulação. A compra da consciência das pessoas faz com que aqueles que deveriam proteger a população e legislar em favor do bem comum acabem, muitas vezes, ajudando a perpetuar e fortalecer uma sociedade com estruturas injustas e desumanas que corroem e destroem a vida das famílias.
É a manifestação da dureza de coração, que concentra a riqueza e é causa da miséria de muitos. Como seria bom se todos, seguindo o exemplo do divino Mestre, que “não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20,28), buscassem uma participação mais ativa na sociedade como forma concreta de amor ao próximo, que permita a construção de uma cultura fraterna baseada no direito, na justiça e no bem comum!
Precisamos, no entanto, acreditar que através da nossa união, fé, amor, oração, coragem, comprometimento, diálogo, comunhão e revisão da realidade conseguiremos gerar uma nova realidade.
Não podemos e nem devemos ficar à margem da busca pela justiça. Ao contrário, devemos nos empenhar na edificação da paz neste nosso mundo marcado por muitas violências e guerras, e, hoje de modo particular, pelo terrorismo, a corrupção e a exploração sexual (Bento XVI, Exortação Apostólica pós sinodal “Sacramento da Caridade”, 78-88).
Só a partilha - e não apenas o aumento da riqueza - é capaz de levar as pessoas e os povos a terem uma qualidade de vida melhor. É preciso que a mensagem Pascal: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma” seja testemunhada como proposta de vida real e concreta para toda a humanidade.
Como cristãos, portanto, precisamos nos empenhar no anúncio e construção do Reino de Deus, que começa já aqui, com a construção de uma sociedade mais justa e fraterna. É na partilha e no amor fraterno, propostos por Jesus, que encontraremos saída rumo às mudanças necessárias para realizar o plano de Deus, onde o ser humano recupere a dignidade do ser imagem e semelhança de Deus e corresponsável na condução de toda Criação (cf. “Laudato Si” 14).
Por tudo isso, celebrar a Festa de São José Operário neste dia 1º de maio é para nós da Pastoral do Trabalhador, das pastorais sociais e de toda a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro a reafirmação de nosso compromisso com a dignidade do trabalhador, a grandeza do trabalho e com todos os que lutam em favor da dignidade humana.


terça-feira, 19 de março de 2019

São José: santo mudo de palavras, mas falante pelas ações

Celebramos hoje o glorioso São José, Patrono da Igreja Universal. Para nós é motivo de alegria, mesmo dentro do período da Quaresma. São José é um dos mais claros exemplos de disponibilidade e de entrega sem reservas a Deus, uma vez que recebeu Maria e “recebeu-a com o Filho que havia de vir ao mundo, por obra do Espírito Santo; demonstrou deste modo uma disponibilidade de vontade, semelhante à disponibilidade de Maria, em ordem àquilo que Deus lhe pedia por meio do seu mensageiro” (João Paulo II, Exortação Apostólica “Redemptoris Custus”, n.03).
Um santo geralmente é conhecido pelo seu legado, sejam escritos sejam palavras transmitidas às gerações futuras pelos seus seguidores e discípulos. Mas de São José não encontramos discípulos, não encontramos escritos, não encontramos palavras suas dirigidas a quem quer que seja. Não seria forçoso dizer que São José é um santo mudo de palavras e falante pelas ações. “Esse silêncio de José tem uma especial eloquência: graças a tal atitude, pode-se captar perfeitamente a verdade contida no juízo que dele nos dá o Evangelho: o ‘justo’” (João Paulo II, Idem, n.17).

Silêncio ativo e operante
Para nós, que vivemos em um tempo profundamente ruidoso e barulhento o esposo de Maria aparece com seu silêncio. Mas, que tipo de silêncio? Um silêncio passivo e sem expressão? Um silêncio sem significado e sem vida?
Importante ter em consideração que o silêncio de José não é passivo e inexpressivo, mas ativo, operante, uma vez que “os Evangelhos falam exclusivamente daquilo que José ‘fez’; no entanto, permitem-nos auscultar nas suas ‘ações’, envolvidas pelo silêncio, um clima de profunda contemplação” (João Paulo II, Idem, n.25).
Para nós, que temos São José como Patrono, ele surge como um mestre de vida interior, como alguém que sabendo da grandeza de seu Criador se põe na adoração do mistério que lhe foi confiado: cuidar, orientar, educar o Filho de Deus, juntamente com sua esposa. Que grande missão, inexplicável ao entendimento humano, digno de ser escutado com o coração, no calar das palavras.
Desta vida de recolhimento “lhe provêm ordens e consolações singularíssimas: dela lhe decorrem também a lógica e a força, própria das almas simples e límpidas, das grandes decisões, como foi a de colocar imediatamente à disposição dos desígnios divinos a própria liberdade (...)” (João Paulo II, Idem, n.26).

Calar para ouvir a voz e a vontade do Senhor
São José nos ensina que é preciso antes calar para ouvir a voz e a vontade do Senhor. Calar para tentar entender os desígnios da vontade divina e só depois anunciar o Evangelho.
São José homem de silêncio, homem de oração, homem justo, “que fez a experiência quer do amor da verdade, ou seja, do puro amor de contemplação da Verdade divina que irradiava da humanidade de Cristo, quer das exigências do amor, ou seja, do amor igualmente puro do serviço, requerido pela proteção e pelo desenvolvimento dessa mesma humanidade” (João Paulo II, Idem, n.27)
São José faz parte daqueles silenciosos para os quais falar é perder tempo, que tem um senso enorme de Deus, do seu Ser sem medida e de sua loucura de Amor. Ele não pede explicações ao Inexplicável! Finalizo lembrando o pedido que fazemos ao nosso Santo Padroeiro, no hino a ele dedicado: “São José, a vós nosso amor. Sede nosso bom protetor, aumentai o nosso fervor”.
Peçamos a São José pelo Santo Padre, hoje comemoramos 6 anos da cerimônia do início público de seu ministério.

Pe. Rafhael Silva Maciel
Presbítero da Arquidiocese de Fortaleza
Missionário da Misericórdia


Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2019-03/sao-jose-reflexao-padre-rafhael-maciel.html

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Cristo Rei: Fiéis são chamados a reconhecer o reinado de Deus sobre todos os povos

No calendário litúrgico, no último domingo de novembro, este ano dia 25, é celebrada a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, comumente conhecida como a Festa de Cristo Rei. O presidente da Comissão para a Liturgia da CNBB, dom Armando Bucciol explica que a origem da Festa coloca-se no tempo de Pio XI, no ano de 1925. À época, dom Armando afirma que a Europa estava passando por um período “difícil”, em meio ao crescimento do Nazismo e do Fascismo em boa parte dos países.
Neste contexto, onde cada vez mais os ditadores queriam mandar no povo, dom Armando salienta que o papa Pio XI institui a Festa de Cristo Rei, por meio da Encíclica Quas Primas. “O papa com o intuito profundo afirmou que não são os grandes da Terra que dominam, não são eles que dirigem os povos, é Jesus Cristo”, afirmou o bispo. Originalmente, a Festa foi estabelecida para o último domingo de outubro, antes da Festa de Todos os Santos. No ano de 1926, quando foi celebrada pela primeira vez, esse domingo caiu para o dia 31 de outubro.
No entanto, foi o papa Paulo VI que deu à festa seu atual título completo, o de Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, transferindo a data para o último domingo do ano litúrgico. Segundo dom Armando, do ponto de vista litúrgico, espiritual e eclesial foi uma boa intuição ter colocado a festa como conclusão do ano litúrgico e síntese de uma caminhada.
As origens do reconhecimento do reinado de Cristo podem ser encontradas no próprio evangelho. Em um importante diálogo com Pilatos, durante seu juízo, dom Armando salienta que Cristo afirma o seu reinado. “Pilatos o pergunta se ele é rei, e então Cristo responde que é, e por isso tinha vindo ao mundo, para dar testemunho da verdade”, diz dom Armando.
Dom Armando salienta também o fato de que nos três anos do ciclo de leituras que a liturgia hoje tem, destaca-se um cristo que é rei, morrendo na cruz. “Portanto, o Cristo Rei é um rei que doou a sua vida por amor, é um Deus que se faz humano e que, sim, nós o honramos como rei, mas não à maneira dos dominadores, dos grandes da Terra”, completou o bispo.
Ainda de acordo com dom Armando, a Festa em si não é para exaltar um Deus poderoso, mas um Cristo cujo poder é o de um Cristo que lava os pés de seus discípulos e que diz: “Como eu fiz, faça vocês!”. “Podemos acrescentar que a maneira de Cristo reinar é uma contestação não só na sociedade, mas na Igreja. O poder é serviço, você é grande quanto mais se abaixa para servir por amor, e com amor”, finaliza dom Armando.

Fonte: http://www.cnbb.org.br/cristo-rei-fieis-sao-chamados-a-reconhecer-o-reinado-de-deus-sobre-todos-os-povos/

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Revista “Bote Fé” traz artigo sobre “Bíblia e Catequese”

Especialmente no mês vocacional, celebrado em agosto, a edição nº 24 da revista “Bote Fé” – publicação da Edições CNBB que conta com a colaboração da assessoria de imprensa da entidade – traz um artigo do arcebispo de Curitiba e presidente da Comissão para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB, dom José Antônio Peruzzo sobre “Catequese e Bíblia”.
Ao abordar o assunto, o arcebispo não pretende enunciar caminhos pedagógicos e/ou metodológicos. Ele acentua, especialmente, que se os pastores e catequistas falarem de Jesus Cristo com fascínio e afeto por Ele, podem acender às belas experiências evangelizadoras de Paulo. E assim, segundo dom Peruzzo, a Leitura Orante da Palavra enlaça fortemente a Bíblia e a Catequese.

Confira com exclusividade o artigo na íntegra:

Bíblia e Catequese
Já se vão muitas décadas que apontam para grande crescimento do interesse pela Palavra de Deus nos ambientes de evangelização. A necessidade e o cuidado pela atenção doutrinal não eram suficientes para promover e salvaguardar profundas experiências de fé e de encontros pessoais com Jesus Cristo. O processo de secularização ainda não havia mostrado toda a sua agressividade. Sua potência disruptiva ainda não era conhecido em toda a sua força.
Mas agora vivemos outros tempos. Muito já se falou da “mudança de época” e de seus efeitos multiplicadores. Por longo tempo ainda comentará sobre os “novos paradigmas”. As verdades seguras, também chamadas de perenes, parecem escorrer como água entre os dedos. As conquistas científicas e tecnológicas surpreendem a cada dia. Por muitos motivos poderíamos pensar que, com tantos avanços, tudo seria mais sereno e mais feliz. Mas as contradições e contrastes também se acentuam. E nossas sociedades parecem se deparar, por um lado com mais recursos e, por outro, com mais marginalidades. É em contextos assim que os cristãos são chamados e enviados a evangelizar.
Também as tradições culturais, religiosas e familiares são golpeadas. Falar de Deus, de Jesus Cristo, de amor, de perdão, de fraternidade, de família, etc, tudo está a pedir novas experiências porque quase tudo está a receber novas significações. Em quadros assim, para onde irá a Catequese? Como ser eco da voz do Senhor?  Perguntas assim assemelham-se àquelas de muitos pais que estão quase todos os dias a se perguntar acerca dos melhores caminhos para a educação dos seus filhos.
Não é a primeira vez que a mensagem do Evangelho se vê confrontada com realidades tão adversas. O diálogo escrito de Paulo com os Coríntios aponta para situação semelhante, ao mesmo tempo que sugere um caminho: “Pois tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria. Nós, porém, proclamamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (1Cor 1,22-23). A semelhança está no caráter contrastante da mensagem. O caminho está no que Paulo proclama. Ele simplesmente proclamava a pessoa de Jesus Cristo. Mas… o evangelizador de hoje poderia perguntar: “Qual a novidade?”
Realmente, no tempo do apóstolo havia uma novidade de conteúdo, o crucificado e ressuscitado. Mas também havia uma outra. Era a afeição e paixão de Paulo pela pessoa de Jesus Cristo. Ele convencia não pelo caráter persuasivo dos seus argumentos. Ele falava com alegria da pessoa que ele conhecera. A sua palavra resultava de um encontro pessoal com o Senhor. Não tenho dúvidas de que seria esta a recomendação que ele, Paulo, nos deixaria.
Daí que falar de Catequese e Bíblia, não pretendo enunciar caminhos pedagógicos e/ou metodológicos. Gostaria, especialmente, de acentuar que, se nós pastores e catequistas falarmos de Jesus Cristo com fascínio e afeto por Ele, poderemos aceder às belas experiências evangelizadoras de Paulo. E a Leitura Orante da Palavra enlaça fortemente a Bíblia e a Catequese.

Fonte: http://www.cnbb.org.br/bote-fe-traz-artigo-sobre-biblia-e-catequese/

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A força do jejum e da oração na superação da violência

Neste dia de oração e jejum pela paz convocado pelo Papa Francisco, o teólogo Padre Erico Hammes nos fala sobre o contexto em que este se realiza e como o jejum e a oração podem representar uma mudança de rota, assim como ajudar a superar os nossos próprios impulsos e tendências à violência.

O Papa Francisco convocou para esta sexta-feira, 23 de fevereiro, um Dia de Oração e Jejum pela paz. Um apelo dirigido não somente aos cristãos, mas a pessoas de outras religiões e todos os homens de boa vontade.
Para melhor entendermos o contexto em que se realiza este chamado do Pontífice e também a força do jejum e da oração, o Vatican News conversou com o padre Erico Hammes*, teólogo, docente na Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul
O Papa Francisco convocou para esta sexta-feira, 23, este Dia de Oração e Jejum pela paz, de sobremaneira pelo Sudão do Sul, pela República Democrática do Congo, mas também pela Síria e poderíamos incluir todos os países onde existem conflitos. E esta, aliás, não é a primeira vez durante o seu pontificado que o Papa promove uma iniciativa do gênero. Seria quase um apelo em uma situação extrema? O mundo vive uma situação de emergência neste sentido?
“Sim, com certeza! E os últimos acontecimentos internacionais e as provocações levam a uma situação que hoje se pode considerar de instabilidade, porque não há uma segurança nas relações internacionais. A situação da Turquia e da Síria e tudo aquilo que está se passando na África, é realmente uma situação muito preocupante e também a situação da política armamentista, e digamos uma espécie de reinício de corrida armamentista. Isto obviamente não faz bem para as relações internacionais e tampouco para a paz”.
Na sua opinião, de que maneira o jejum e a oração podem influir positivamente neste contexto?
“Nós temos alguns exemplos muito significativos. Talvez o que marcou muito o século XX foi a atividade de Gandhi, que sempre insistiu na questão do jejum como uma forma de as pessoas mesmo se prepararem e se dedicarem para a paz.
A oração,  nós temos o caso da Alemanha Oriental, em que durante muitos anos na igreja de São Nicolau, em Leipzig, se faziam nas segundas-feiras as orações às cinco horas da tarde, e isso foi o que deu assim a força para o movimento de 1989 poder ir para as ruas e terminar com o Muro de Berlim.  

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

As lições do Presépio

Pe. Cristiano Holtz
Vigário paroquial da Catedral de São Sebastião

Principal representação do Natal, o presépio foi idealizado por São Francisco de Assis em 1223 para retratar o nascimento de Jesus. Não é uma representação litúrgica, mas devocional. Contudo, vamos tentar lançar um olhar diferente sobre ele, contemplando suas partes a partir do valor litúrgico que cada uma possui:

a) Manjedoura: a palavra significa “lugar de se alimentar”. É o lugar onde se coloca o alimento para os rebanhos. Foi onde reclinaram Jesus após seu nascimento (Lc 2,7). Apesar da situação de abandono, é possível ler este fato como uma profecia sobre a vida de Jesus, pois na cidade de Belém (casa do pão), nasceu Aquele que disse: “Eu sou o Pão da vida” (Jo 6,35), e foi colocado na manjedoura, da mesma forma como mais tarde dirá: “Tomai todos e comei: isto é o meu corpo” (Mt 26,26).

b) São José: José, descendente de Davi (Lc 2,4), ao assumir Jesus como seu filho, dando-lhe o nome (Mt 1,21; Lc 2,21), deu-lhe a descendência de Davi, não pelo sangue, mas pela adoção (cf. Rm 4,13). É significativo recordar que, em Jesus, todos nos tornamos filhos e herdeiros, pela graça de Deus, e não mais pela Lei (cf. Gl 4,5.7).

c) Virgem Maria: Jesus nasceu de Maria, é “carne da nossa carne” (Gn 2,23). Nasceu como todos nós. Assim, podemos dizer, como lembra São Paulo no areópago: “Somos da raça do próprio Deus” (At 17,28). Agradeçamos a Deus por nos ter enviado seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para nos resgatar (cf. Gl 4,4s).

d) Estrela: foi o sinal que guiou os Magos, indicando que Jesus havia nascido (Mt 2,2). Ora, por meio do profeta Daniel, o Senhor havia dito que “os que ensinam a muitos a justiça serão como estrelas, por toda a eternidade” (Dn 12,3). A estrela nos recorda os profetas, que instruíam o povo de Israel a deixar o mal e a praticar o bem (Is 1,16-17), reorientando-o para Deus, até que chegasse a luz que ilumina todo homem (Jo 1,9).

e) Anjo: a palavra “anjo” significa “mensageiro”. Foi um anjo que trouxe a notícia do nascimento de Jesus aos pastores (Lc 2,9). O anjo nos recorda o que diz o autor da Carta aos Hebreus logo no seu início: que agora Deus fala conosco por meio do seu Filho, ao qual todos os anjos devem adorar e servir (Hb 1,6). Sua missão é indicar Aquele que é a Boa Nova por excelência, o próprio Deus na carne humana.

f) Pastores e animais: os pastores receberam o anúncio do anjo e vieram contemplar o sinal que este lhes anunciara (Lc 2,9-16). Lá chegando, encontraram Aquele que é o Bom Pastor, que dá a vida pelas suas ovelhas (Jo 10,11), e que, mais tarde, constituirá os seus discípulos como pastores (Jo 21,15-17). Assim, os pastores serão também rebanho, alimentado e protegido pelo único Pastor.

g) Magos: não são do povo de Israel, mas, guiados pela estrela, reconheceram Jesus como o Rei dos judeus, oferecendo-lhe presentes. São imagem dos pagãos, associados à fé pela ação do Espírito Santo por meio da pregação do Evangelho (At 11,18). Isso significa que o Evangelho não tem fronteiras, pode chegar até onde haja um coração disposto a acolhê-lo generosamente, fazendo novos filhos de Deus pela graça (Jo 1,12-13). Recorda também que todo aquele que, ouvindo a Palavra, reconhece Jesus como Rei, deve estar disposto a abrir generosamente seus cofres e oferecer-lhe seus dons (Mt 2,11), não somente em sentido material, mas especialmente ofertando sua vida em favor dos irmãos, na partilha solidária, na escuta, no acolhimento mútuo e no perdão.

Que estas breves lições nos ajudem a celebrar bem o Natal do Senhor!

Fonte: http://arqrio.org/formacao/detalhes/1979/as-licoes-do-presepio

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A trajetória de um apóstolo contemporâneo

Luiz Antônio Monteiro
Conselheiro do INBRAC e diretor da TV Independente

O Cardeal Orani João Tempesta preside o Conselho Superior do Instituto Brasileiro de Comunicação Cristã (Inbrac), mantenedor da RedeVida de Televisão. O organismo é responsável pela diretriz doutrinal, a garantia dos princípios fundamentais das linhas idealizadas por Dom Antônio Mucciolo, Dom Luciano Mendes de Almeida e pelo jornalista Monteiro Filho.
O espírito de liberdade e de defesa da paz, da dignidade humana e dos valores éticos motivou o cardeal a fomentar o crescimento do “Canal da Família” em 2016.
A ligação é antiga, começando em 1997 quando a emissora tinha dois anos de existência. Dom Orani João Tempesta foi eleito bispo de São José do Rio Preto (SP), e abraçou a RedeVida como ponto expressivo, elo significativo da diocese para com o país. Com experiência ativa na área da comunicação social, o cisterciense paulista orientou a TV e passou a integrar o conselho do Inbrac.
A transferência para a Arquidiocese de Belém do Pará não limitou sua missão de apoio à emissora, levando inclusive a RedeVida a uma aproximação mais fecunda com a devoção mariana de Nossa Senhora de Nazaré. A mais notável romaria da Amazônia ganhou impulso extraordinário com a presença de Dom Orani como arcebispo metropolitano.
A nomeação para o Rio de Janeiro para suceder Dom Eusébio Scheid consolidou a habilidade articuladora, reconhecendo em sua capacidade de diálogo com as culturas e a comunicação os pontos determinantes para atender as novas demandas cariocas. A arquidiocese protegida por São Sebastião encontrou em Dom Orani Tempesta um ‘guerreiro’ para as causas sociais, culturais e religiosas, numa cidade maravilhosa e diversificada.
O maior desafio foi abrigar, em 2013, a realização da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) no Rio. A complexidade, as exigências financeiras e estruturais, o atendimento pastoral e logístico para a sua realização pediram um arcebispo aberto ao diálogo, com vocação plena para ações políticas com autoridades em particular, e motivador da juventude em geral.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Vida e sociedade


D. Antonio Augusto Dias Duarte
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
A Semana Nacional da Vida, instituída pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil desde 2005, tem sido, ao longo desses anos, um momento muito positivo de reflexão sobre a vida nas suas diversas dimensões. Destacam-se, como ápice desses sete dias, as orações pela vida humana e as ações favoráveis ao seu valor sagrado.
No ano de 2016, o tema desta reflexão versa sobre “Vida e sociedade”, e mostra as luzes e as sombras presentes na atualidade cultural do mundo, facilitando ou dificultando o que se pensa e o que se quer fazer sobre a valorização, a promoção e a proclamação do profundo e rico bem social da vida.
Viver é próprio de todos os seres vivos. A vida vegetal, a vida animal e a vida humana são vivências, conforme a natureza de cada um dos seres pertencentes a esta categoria de bem inestimável e necessário para a humanidade. A sociedade, estruturada e organizada em torno de seres humanos, exige de cada um não apenas relações civilizadas entre si, mas também relações humanitárias com os demais seres vivos.
O “cuidado com a casa comum” foi a expressão mais insistente e prática na Encíclica “Laudato si”, do Papa Francisco. Nas suas páginas encontramos o segredo para integrar vida e sociedade, que é a via da ecologia integral. Nesta via, o Papa Francisco coloca a responsabilidade de cuidar da casa comum sobre os ombros do ser humano. Embora a vida humana tenha um valor sagrado e inviolável acima das demais vidas, cada homem e cada mulher devem reconhecer que um ser vivo, seja qual for, no reino vegetal ou animal, é uma manifestação do amor criador de Deus, diz a “Laudato si”.
A gestão ecológica, na atualidade, vai muito além dos limites puramente biológicos, e tornou-se um dos grandes temas de debate e de reflexões na sociedade moderna e pós-moderna. Os homens da ciência e os pensadores mais lúcidos no campo ecológico e antropológico têm advertido a sociedade civil e as Igrejas, bem como as diversas religiões, que o progresso tecnológico e as necessidades econômicas dos países em desenvolvimento não são eticamente neutros e devem ser orientados para o bem da “casa comum”.