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quarta-feira, 17 de março de 2021

Ano de São José

 

D. Orani João Tempesta 
Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro

“Eis o servo fiel e prudente, a quem o Senhor confiou a sua casa” (Lc 12,24).

Durante a nossa caminhada quaresmal, temos a graça de celebrar a solenidade daquele que é modelo e exemplo de cuidado com as coisas de Deus: no dia 19 de março, a Igreja celebra a solenidade do Glorioso Patriarca São José. Homem justo, segundo a Escritura, escolhido por Deus para ser o guardião dos tesouros de Deus: seu filho feito Homem, Jesus Cristo, a Virgem Maria e, como consequência, o corpo místico de Cristo, que é a Igreja.

Neste ano, a celebração desta solenidade reveste-se de um significado todo especial: em 2021 celebramos os 150 anos da Proclamação de São José como Patrono da Igreja Universal. Esta proclamação deu-se no dia 08 de dezembro do ano de 1870, pelo beato Pio IX. Para marcar intensamente esta data, o Papa Francisco publicou em 08 de dezembro de 2020 a Carta Apostólica PATRIS CORDE (com coração de pai), onde estabelece o ano de 2021 como o Ano de São José, convidando a Igreja a olhar de forma especial para esta figura que tanto tem a nos ensinar em nosso caminho de fé.

Dentre tantas coisas, o Papa destaca, na Carta Apostólica, o quanto a contemplação da figura de São José pode nos auxiliar a viver melhor este tempo de Pandemia:

“Assim ao completarem-se 150 anos da sua declaração como Padroeiro da Igreja Católica, feita pelo Beato Pio IX a 8 de dezembro de 1870, gostaria de deixar «a boca – como diz Jesus – falar da abundância do coração» (Mt 12, 34), para partilhar convosco algumas reflexões pessoais sobre esta figura extraordinária, tão próxima da condição humana de cada um de nós. Tal desejo foi crescendo ao longo destes meses de pandemia em que pudemos experimentar, no meio da crise que nos afeta, que «as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do último espetáculo, mas que hoje estão, sem dúvida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiras e enfermeiros, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho. (…) Quantas pessoas dia a dia exercitam a paciência e infundem esperança, tendo a peito não semear pânico, mas corresponsabilidade! Quantos pais, mães, avôs e avós, professores mostram às nossas crianças, com pequenos gestos do dia a dia, como enfrentar e atravessar uma crise, readaptando hábitos, levantando o olhar e estimulando a oração! Quantas pessoas rezam, se imolam e intercedem pelo bem de todos».

Todos podem encontrar em São José – o homem que passa despercebido, o homem da presença quotidiana discreta e escondida – um intercessor, um amparo e uma guia nos momentos de dificuldade.

São José lembra-nos que todos aqueles que estão, aparentemente, escondidos ou em segundo plano, têm um protagonismo sem paralelo na história da salvação. A todos eles, dirijo uma palavra de reconhecimento e gratidão.” (PC, introdução).

Pouco se fala na Sagrada Escritura do homem José, mas o que se fala é sempre para enaltecer este homem escolhido. De José sabemos que Deus lhe falou através dos anjos, em sonhos. É testemunha da adoração dos pastores e dos reis magos. Testemunha a profecia proferida sobre Jesus no momento da apresentação no Templo. Obedecendo ao aviso de Deus, José toma Maria e o menino, em meio à noite, para fugir a ira de Herodes, fugindo para o Egito. Grande parte da vida oculta de Jesus foi vivida sob a missão da figura de São José.

A palavra de Deus proclamada nesta liturgia nos auxilia a contemplar as maravilhas de Deus realizadas na vida de S. José. No Evangelho dessa Solenidade (Mt 1, 16.18-21.24a.) Mateus nos apresenta o relato da vocação de José, contada a partir da narrativa da origem de Jesus Cristo. Jesus, sem ser Filho de José segundo a carne, é o Messias descendente de Davi. Já na genealogia se havia indicado, mas agora o Evangelho explica como isso foi possível: é obra de Deus, pois é Ele quem tem a iniciativa chamando José para ser o esposo de Maria e pai do menino. São José aceita com obediência e, por desígnio divino, exerce a paternidade adotiva sobre Jesus, dando-lhe o nome e cuidando do menino e da Virgem Maria.

O Evangelho nos conta que Maria estava prometida em casamento a José. Esta realidade correspondia ao noivado, sendo que o compromisso de casamento judaico, os esponsais, era um compromisso de união matrimonial com efeitos jurídicos e morais de verdadeiro casamento. O versículo 19, ao falar da atitude de José de querer abandonar Maria em segredo, mostra como José era justo, com uma justiça que vai além dos preceitos da lei. O gesto de José é interpretado por importantes autores da tradição cristã não como uma suspeita da parte de José em relação a Maria, mas como uma intuição da ação de Deus nela. Segundo São Bernardo, José se julga indigno e pecador, e pensava que não deveria conviver com uma mulher que lhe causava admiração pela grandeza de sua admirável dignidade. Como não podia adentrar o mistério, decidiu deixá-la. Ficou maravilhado ante a novidade do milagre e a profundidade do mistério.

Segundo a tradição Judaica, colocar nome a um menino significa reconhecê-lo como filho. É Deus quem dá esta ordem a José, a ordem de ser o coordenador do nascimento do Senhor, aquele que tem a missão de introduzir o Filho de Deus no mundo segundo o mandato Divino e segundo as leis humanas. Toda a vida oculta de Jesus foi confiada aos seus cuidados. José foi escolhido como guardião dos tesouros de Deus.

Na primeira leitura da solenidade (2 Sm 7, 4-5a. 12-14a.16) contemplamos a profecia de Deus dirigida ao rei Davi por meio do profeta Natã. É feita uma promessa: Deus dará a Davi um reinado que durará para sempre. Mas este reinado eterno virá de um descendente dele. A profecia é constituída sobre uma oposição: não será Davi que fará uma casa para o Senhor. Será o Senhor que fará uma casa, uma dinastia, para Davi. O oráculo ultrapassa a pessoa do primeiro sucessor de Davi, Salomão, deixando entrever um descendente privilegiado em quem Deus se comprazerá. O primeiro versículo do Evangelho de hoje vai fazer questão em mostrar que José é descendente de Davi e que por sua adoção vai também se cumprir a promessa feita a Davi.

O salmo 88 (Sl 88, 2-3.4-5.27. 29) faz da promessa descrita anteriormente, uma oração. O salmista exalta a fidelidade de Deus e a partir dessa confiança relembra a promessa de um reinado que durará para sempre. A oração que se eleva a Deus neste salmo foi escutada exaltando o Filho de Davi, Jesus Cristo, como rei Eterno e cumprindo assim suas promessas.

Na segunda leitura, (Rm 4, 13.16-18.22) a carta de São Paulo aos Romanos vai evocar uma promessa: a promessa feita a Abraão, que pode ser considerado herdeiro desta e considerado pai de uma multidão, por causa da fé. A dignidade da paternidade aqui colocada não vem ligada a um fator biológico, mas à liberalidade Divina que a concede como um dom: tornar-se pai diante de Deus em virtude da fé. A fé de Abraão faz com que ele seja depositário da promessa. Da mesma forma, a fé do patriarca José faz com que tenha sido escolhido como instrumento do cumprimento da promessa feita a Davi.

Que neste ano de São José, possamos pedir sua intercessão para nos livrar de todo mal e nos fazer cada dia mais servos do Filho de Deus. Que o silêncio orante e provedor de São José ajude a todos os homens e mulheres de boa vontade para que fazendo a vontade de Deus, na oração e no trabalho, testemunhem o Cristo Ressuscitado!

Rezemos pelo papa Francisco que completa nesta solenidade 08 anos de início solene do Ministério Petrino. Que Deus o abençoe e o livre de todo mal. Rezemos por nossos doentes e por todos aqueles que padecem por necessidades materiais e espirituais. Rezemos por nossas famílias, célula base da vida em sociedade, para que S. José, protetor das famílias, as sustente em suas dificuldades do dia a dia. Estamos iniciando hoje o ano da “família amoris laetitia” comemorando 5 anos da assinatura desse documento pelo Papa Francisco. Que a paternidade evocada no documento sobre São José ajude ainda mais a aparecer a beleza da família cristã descrita no belo documento do Papa sobre a alegria da família. Deus abençoe e guarde a todos.

Fonte: https://www.inveritatem.com.br/post/ano-de-s%C3%A3o-jos%C3%A9

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Cristo é a nossa Paz


D. Orani João Tempesta
Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro

Há quase 60 anos que a Igreja no Brasil, durante o Tempo da Quaresma, realiza a Campanha da Fraternidade. Como tempo de conversão e preparação para a Páscoa, a vida deve sempre mais ser examinada para se viver melhor como cristão. Daí a penitência, jejum, abstinência, esmola, confissões, orações e outras atividades quaresmais, além das participações nos sacramentos e devoções que já temos costume durante o ano. A Campanha da Fraternidade é uma ocasião de examinar a nossa vida diante de situações sociais que nos impulsionam à conversão. Por isso, cada ano se escolhe um tema e um lema determinado para nos ajudar a pensar um pouco em nossas ações diárias, seja conosco mesmos, seja com quem convivemos ao nosso redor e com o nosso planeta. Os temas da CF sempre são abrangentes, pois supõem um diálogo com a sociedade. Os assuntos das CFs questionam também a sociedade em diversas formas. Por isso sempre são questões sociais em geral.

O tema e o lema da Campanha da Fraternidade, além de serem mais aprofundados no período quaresmal, orientam também os outros temas e lemas durante o ano todo. A Campanha da Fraternidade quer nos ajudar a viver melhor a Quaresma, chamando-nos à conversão, e por isso é ligada estreitamente à identidade católica, devido ao tempo em que ela é inserida, porém o tema sempre é mais abrangente e chama a todos a sérias reflexões, por isso pode atingir a todos. A Quaresma é sempre um convite à conversão, à mudança de vida, e a Campanha da Fraternidade é um incentivo para essa mudança.

A Campanha da Fraternidade que acontece no Brasil é similar a outras campanhas quaresmais que ocorrem pelo mundo afora, em outros países e até mais antigas que a nossa. Ela tem o aval do Papa Francisco, que sempre dirige à Igreja no Brasil uma palavra que incentiva a vivência do tema da Campanha, como sempre fizeram os Papas anteriores. A Campanha da Fraternidade tem consonância com aquilo que pede o Concílio Ecumênico Vaticano II, tendo uma séria reflexão sobre a missão da Igreja no mundo de hoje com suas alegrias e esperanças.

A Campanha da Fraternidade realizada anualmente pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) foi idealizada, inicialmente em 1961, por três padres responsáveis pela “Cáritas” no Brasil, sob a inspiração do Eminentíssimo Senhor Cardeal Eugenio de Araujo Sales, de saudosa memória, nosso predecessor na Sé Metropolitana de São Sebastião do Rio de Janeiro, e, na época, administrador apostólico de Natal, RN. Eles idealizaram uma Campanha a fim de levantar fundos para ajudar os pobres. E com esse objetivo continua até hoje: partilhando o que se recebe com os programas sociais que são examinados para serem contemplados com ajuda. Os iniciadores deram a essa ideia o nome de Campanha da Fraternidade, que foi realizada pela primeira vez na Quaresma de 1962, na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte. Em 1964, a Campanha da Fraternidade atingiu todo o Brasil e, desde então, começou a ser em nível nacional.

O primeiro tema da Campanha da Fraternidade em nível nacional foi: “Igreja em Renovação”, tema que coincidia com o atual momento da Igreja, que celebrava o Concílio Vaticano II. A Igreja vivia uma grande transformação por dentro e por fora, pois a Igreja era chamada a se renovar perante o mundo e inovar sua maneira de anunciar o Evangelho. Desde então, a Campanha da Fraternidade foi se solidificando ano a ano, com temas que ajudam a refletir o nosso agir no mundo, perante Deus e com o nosso próximo. Os temas e lemas das CFs foram tomando várias formas no decorrer dos anos de acordo com a evolução da caminhada eclesial.

O próprio nome Campanha da Fraternidade deveria nos ajudar a refletir como estamos tratando o nosso semelhante e ser um incentivo para mudar a atitude com o nosso próximo. E cuidando bem do meio em que vivo, eu não penso somente em mim, mas no meu próximo igualmente.

Sempre esperamos que a Campanha da Fraternidade sirva para ajudar na conversão, e que ela seja um norte para nos conscientizarmos daquilo que precisamos cuidar mais, para que nunca nos falte. Como por exemplo quando tivemos a Campanha da Fraternidade sobre a água, nos alertando para cuidar desse bem tão precioso para todos nós e que ao economizar o uso da água, ao tornar o seu uso mais consciente, não faltará jamais para ninguém. Da mesma forma quando tivemos a Campanha da Fraternidade sobre a Amazônia, nos alertando para o cuidado com a floresta, um patrimônio nacional, um dos pulmões do mundo. Isso para citar apenas duas ocasiões, mas cada ano tem apelos específicos e importantes.

A Quaresma é um tempo de conversão e de mudança de vida, por isso a Campanha da Fraternidade é posta com o intuito de conscientizar a todos, não somente os católicos, e a cada cinco anos é pensada de modo ecumênico. É preciso também se conscientizar de que Campanha da Fraternidade dura os 40 dias da Quaresma, mas a temática posta para a nossa reflexão e vida deve permear todos os dias daquele ano e de nossa vida. Quantas reflexões da CF ficaram até hoje em nossos comportamentos!

A Campanha da Fraternidade deste ano tem como tema: “Fraternidade e diálogo: Compromisso de amor” e como lema: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade”. Este lema tem como base a Carta de São Paulo aos Efésios 2,14. A atual Campanha da Fraternidade é ecumênica, ou seja, foi pensada sob a responsabilidade de um grupo de igrejas cristãs por concessão da CNBB. É a quinta que acontece dessa forma. Todo cristão deve estar aberto à fraternidade e ao diálogo.

Vivemos em um mundo marcado pela intolerância, no qual as pessoas semeiam ódio em seu coração, falta a paciência para com o outro e, por vezes, o mandamento do amor instaurado por Jesus é esquecido. As pessoas doentes, os pobres, os idosos, os marginalizados são esquecidos pela sociedade e descartados. Cabe aos cristãos ser sinal de uma nova atitude, e acolher em seu meio todos os pobres, doentes e marginalizados.

A pandemia da Covid-19 tem-nos dado também uma grande lição e, de certa forma, nos ajuda a refletir que temos que tratar o outro de modo melhor. Se quisermos construir uma sociedade mais justa e fraterna, devemos começar mudando a nossa própria atitude. E essa mudança de atitude deve começar primeiramente entre nós, terminando as intolerâncias e sabendo aceitar a diversidade de situações e opiniões. E fazer com que as relações diárias se pautem pelo diálogo e pelo amor recíproco que vem de Jesus.

A Campanha da Fraternidade Ecumênica desse ano de 2021 quer mostrar que através do diálogo amoroso e do testemunho da unidade na diversidade, inspirados no amor de Cristo, convidemos as comunidades de fé e as pessoas de boa vontade para pensarem, avaliarem e identificarem caminhos para a superação das polarizações e da violência que marcam o mundo hodierno.

Esta Campanha quer nos alertar ainda que o diálogo é o caminho para construirmos relações mais fraternas. O Papa Francisco apontou também no discurso durante o encontro com o corpo diplomático sediado na Santa Sé, que a “fraternidade” é uma necessidade de nosso tempo enquanto semeamos “esperança”. Nós como profetas no mundo de hoje devemos denunciar os diferentes tipos de violências praticadas e legitimadas indevidamente até mesmo em Nome de Jesus. Ou seja, pelo Nome de Jesus devemos nos unir e nunca, jamais dividir.

Vivenciemos com alegria a Campanha da Fraternidade desse ano de 2021, participemos de sua abertura na Quarta-feira de Cinzas e cheguemos com generosidade no Domingo de Ramos, encerrando o tempo da Campanha com a Coleta da Solidariedade. Porém, tenhamos consciência de que o assunto será aprofundado durante o ano em vários outros temas e lemas dos tempos (semanas ou meses) temáticos. Que possamos ser sempre sinal de ressurreição para as pessoas. São muitas comunidades e organizações que puderam ser ajudadas durante esses anos com a coleta anual, fruto das penitências quaresmais dos católicos. As dioceses, que ficam com uma parte dessa coleta, tem também oportunidade de um coordenado trabalho social mais localizado em sua região. A visão nacional ou regional da situação social ajuda com que essa ajuda seja para situações graves que chegam ao conhecimento dos coordenadores da Campanha.

Segue abaixo a oração para a Campanha da Fraternidade deste ano, para nos ajudar em nossa espiritualidade:

“Deus da vida, da justiça e do amor, Nós Te bendizemos pelo dom da fraternidade e por concederes a graça de vivermos a comunhão na diversidade. Através desta Campanha da Fraternidade Ecumênica, ajuda-nos a testemunhar a beleza do diálogo como compromisso de amor, criando pontes que unem em vez de muros que separam e geram indiferença e ódio. Torna-nos pessoas sensíveis e disponíveis para servir a toda a Humanidade, em especial, aos mais pobres e fragilizados, a fim de que possamos testemunhar o Teu amor redentor e partilhar suas dores e angústias, suas alegrias e esperanças, caminhando pelas veredas da amorosidade. Por Jesus Cristo, nossa paz, no Espírito Santo, sopro restaurador da vida. Amém”.

Fonte: http://arqrio.org/noticias/detalhes/8134/cristo-e-a-nossa-paz

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Dia do Professor

 



Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)


Recordamos, no próximo 15 de outubro, o Dia do Professor, uma profissão que, em seu exercício, é elevada por um propósito que vai além. Uma missão que nos prepara para o futuro. Ao falarmos de professor estamos nos referindo também à educação. É um dos segredos de um país. Um povo que tem uma educação de qualidade faz toda a diferença. E para isso necessitamos de mestres que sejam bem recompensados e respeitados. Em nossa arquidiocese criamos o Vicariato para a Educação justamente para ser o nosso interlocutor com essa vasta área do conhecimento e para apoiar aqueles que necessitam de dar passos importantes.

Para que o professor seja valorizado como merece nos dias de hoje, seria necessário pagar um salário melhor. Muitos professores, infelizmente, não são retribuídos de acordo com o que trabalham. Em segundo lugar deveria ter mais recursos, ou seja, instrumentos de trabalho para que o professor possa lecionar com mais recursos. E, em terceiro lugar, ser valorizado pelos alunos. Hoje em dia se perdeu o respeito dos alunos para com os professores. Em muitas escolas os estudantes chegam a agredir os professores, que acabam tendo de se desdobrar para conseguir ministrar a sua aula.

Sobretudo agora, nesse tempo de pandemia da Covid-19, muitos professores fizeram um excelente trabalho, preparando aulas online, se desdobrando para levar o melhor aos seus alunos tendo reinventado a sua pedagogia de uma hora para outra. Tanto os professores quanto os estudantes tiveram que viver um “novo normal” nesse período distanciamento social. Os alunos sem o contato físico com seus professores para tirar as dúvidas sobre a aula e os professores sem poder estar perto de seus estudantes para ajudá-los.

Podemos pensar nesse momento em muitos profissionais espalhados pelo interior do nosso Brasil, que, em tempos normais, precisam andar quilômetros para lecionar — e pensar em tantas escolas sem condições precárias para ensinar. E muitos alunos que sofrem ao longo do caminho para chegar nessas escolas. Muitos têm vontade de aprender e adquirir conhecimento sobre o que o professor ensina.

Para ser professor é preciso ter vocação e preparar-se para tal. É um dom especial que deve ser trabalhado para poder servir aos alunos com o carisma próprio. Precisa ter paciência e vontade para ensinar e coragem para enfrentar algumas situações adversas. É aceitar o desafio.

É preciso recuperar a imagem do professor como mestre. Aquele que ensina e que educa os alunos no caminho do bem e os dirige para que eles possam ter uma vida digna e saber fazer escolha inteligentes e sábidas para a vida e trabalho futuros. Por isso, nesse Dia do Professor, recordamos de tantos educadores que tivemos em nossa vida e reconheçamos que, se somos o que somos hoje, também é graças a eles. Os pais devem ensinar os seus filhos a serem agradecidos aos seus professores e a respeitá-los como seus mestres.

Devemos sempre lembrar dessa data e valorizar cada gesto — por vezes esquecemos de lembrar dos nossos professores; e nossos filhos na escola também fazem o mesmo não parabenizar esses mestres. Essa data, além de comemorar o Dia do Professor, é um momento de, acima de tudo, agradecer a presença desses mestres na nossa vida. É preciso ir além: o reconhecimento aos professores passa por gestos e palavras.

Um presente que podemos dar aos professores nesse dia é a nossa lembrança, acompanhada de uma especial oração de gratidão e de ação de graças pelos conhecimentos recebidos deles, e um sincero agradecimento ao ensino que eles nos transmitiram. E, sobretudo, um pedido especial para que essa profissão seja considerada uma das mais importantes e reconhecidas em nosso País.

Que a nossa oração por eles nesse dia seja também por aqueles que já estão junto de Deus — tanto aos que foram nossos quanto os que exercem essa missão de educar.

Quantos professores que se aposentaram depois de anos se dedicando ao ensino e hoje não são se quer lembrados, tanto por aqueles que foram seus alunos. Que tenham o reconhecimento com um salário digno de suas vidas como aposentados. Temos também os professores que continuam o exercício de sua profissão porque simplesmente não conseguem parar — querem lecionar até o fim de suas vidas. É uma vocação que querem continuar servindo.

No Dia do Professor lembremos o dia de uma grande Santa da Igreja, a Santa Teresa D’Ávila, Doutora da Igreja, que é comemorada neste dia, que como mestra nos deixou grandes ensinamentos escritos e trabalhou juntamente com São João da Cruz na reforma do Carmelo, recuperando o Espírito inicial dos Carmelitas.

Peçamos a intercessão dessa grande Santa por todos os professores e que ela sirva de inspiração em seus ensinamentos e escritos. Que ela lhes inspire sabedoria para enfrentar os momentos difíceis e que possam ministrar suas aulas com êxito. Que o Divino Espírito Santo esteja com todos os professores, lhes inspirando sabedoria na tarefa de ensinar.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Dia dos Avós

D. Orani João Tempesta
Cardeal Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

No dia 26 de julho, a Igreja celebra Sant'Ana e São Joaquim, que, segundo a tradição cristã, são os pais de Maria, a mãe de Jesus. Santana é também padroeira secundária da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. São Joaquim e Santana exercem singular importância na história da salvação: deram à luz Maria que viria a se tornar o tabernáculo vivo de Deus feito homem. Foi o ensino deles que a levou a corresponder à ação do Espírito Santo e, assim, acolher o pedido de Deus com fé. Foi o ensinamento e o exemplo de seus pais que Maria Santíssima deve ter seguido, e com esse exemplo também ensinou Seu filho Jesus. Foi essa fé que a colocou na coragem para assumir, mais tarde, a cruz que Seu filho carregou.

Sant'Ana foi homenageada desde os primeiros tempos do cristianismo. Igrejas foram dedicadas em sua honra, e os padres, especialmente das Igrejas orientais, exaltavam a sua santidade de vida. Por sua vez, também São Joaquim tem devoção comprovada desde o século VI, e é venerado em diversos países.

Na iconografia cristã, o casal é frequentemente retratado com Maria e segurando um livro das Escrituras, ensinando sua filha as Sagradas Escrituras. Por isso, neste dia a Igreja recorda a importante e até mesmo fundamental missão que os avós exercem no seio das famílias. É a tradição, cultura, civilização que os sábios transmitem aos mais novos. Quando perdemos esse elo, a realidade do mundo perde também suas raízes.

O Papa emérito, Bento XVI, na mensagem do Ângelus do dia 26 de julho de 2009, já recordava que "nas famílias os avós são muitas vezes testemunhas dos valores fundamentais da vida". Bento XVI recordou ainda que "o papel educativo dos avós é sempre muito importante" e torna-se ainda mais quanto, por várias razões, os pais não conseguem dedicar um tempo adequado para seus filhos. E ainda: "confio à proteção de Santa Ana e São Joaquim todos os avós do mundo".

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Catequese e Evangelização

D. Orani João Tempesta
Cardeal Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

A catequese é o cerne da ação evangelizadora da Igreja; é pela catequese batismal que iniciamos a nossa vida de fé e somos incorporados na Igreja de Cristo. Ainda mais agora neste mundo em que vivemos é de vital importância o anúncio da Palavra de Deus. Um mundo onde as pessoas têm diversas outras ocupações e distrações. Seja por meio do celular, da televisão e da internet, temos que chamar a atenção de alguma forma para a Palavra de Deus.

Em todos os lugares onde há pessoas sedentas de Deus é preciso levar para essas pessoas o anúncio da Palavra de Deus, cumprindo assim o mandato de Jesus “Ide por todo mundo e a todos pregai o Evangelho”. Mesmo que não nos escutem, deixamos plantada a semente da Palavra de Deus para elas nesses lugares.

Jesus Cristo é a palavra “encarnada” do Pai; Deus O “revelou” ao ser humano, para que por meio d’Ele pudéssemos conhecer a intimidade do Pai. Essa revelação se dá por meio do Espírito Santo que nos ajuda a entender e a compreender a Palavra de Deus. Os responsáveis por propagar essa Palavra são os catequistas, chamados por Deus, por uma vocação dada do alto, a anunciar essa Palavra.

Os catequistas podem ser os leigos batizados, que são por excelência discípulos missionários de Jesus e chamados a cooperar no plano de salvação de Deus. Devem ser os padres que são os catequistas por excelência em suas comunidades e os diáconos que são os ministros da Palavra e chamados também a propagar essa palavra a todos aqueles que de coração sincero queira recebê-la. Devem ser os bispos, que são sucessores dos apóstolos, e chamados a propagar em cada canto da terra a mensagem de salvação.

A catequese pode ser vista também como sinal de conversão, ou seja, por meio do anúncio da Palavra de Deus que entra pelos ouvidos e desce ao coração, o Espírito Santo pode suscitar na pessoa o dom da fé. Nesse caso se trata do querigma, que é o primeiro anúncio de Deus que eu faço para uma pessoa que será batizada.

A catequese deve começar desde a base, ou seja, no Batismo, que é o sacramento que abre as portas para a fé e, a partir do Batismo, passar pela catequese preparatória para a Eucaristia e a Crisma. O papel da catequese é mostrar por meio da Palavra de Deus que os sacramentos são sinais sagrados pelos quais Deus quis manifestar o seu grande amor por todos nós.

terça-feira, 21 de julho de 2020

Catequese e a Palavra

D. Orani João Tempesta
Cardeal Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro


A Igreja vê com grande importância o anúncio da Palavra de Deus, e a catequese está em sua essência evangelizadora. Por isso, ela sempre se preocupou em formar catequistas para que, com experiência, possam transmitir aos catecúmenos a mensagem do Evangelho.

A Igreja está atenta, sobretudo, na transmissão do Evangelho a esses catecúmenos com o anúncio do querigma, ou seja, por meio da apresentação de Jesus Cristo para que esses, tornando-se cristãos, permaneçam sempre firmes na fé. O Sacramento do Batismo é o primeiro sacramento que recebemos na nossa vida de fé, é a porta de entrada para os sacramentos e para a vida na Igreja. Por meio dele somos chamados de “Filhos de Deus”. Ele faz parte do ciclo dos sacramentos da iniciação cristã, por isso é tão importante a sua preparação, que possui também a finalidade de que aqueles que receberam o Batismo permaneçam firmes na fé para receberem a Eucaristia e a Crisma, que significa assumir com maturidade a fé que recebemos no Batismo.

Desse modo, a Igreja se compromete na preparação desses catequistas que devem, de maneira especial, ser fiéis batizados, leigos e leigos, com o mandato de anúncio do Evangelho. Todo batizado, com a vocação universal à santidade, é chamado a ser discípulo missionário de Jesus Cristo e a levar a Boa Nova do Evangelho a todas as pessoas, cumprindo o que Jesus pediu aos apóstolos: “Ide por todo mundo e a todos pregai o Evangelho”. A Igreja se preocupa também na formação dos padres para que estes sejam por excelência os catequistas em suas comunidades. Os bispos, como sucessores dos apóstolos, são chamados a levar adiante a propagação da Palavra de Deus, e os diáconos, que são “ministros da Palavra”, chamados por Deus a levar a sua Palavra aos doentes e marginalizados.

A Palavra de Deus chegou até nós por meio da Palavra revelada por Jesus, que é a Palavra encarnada do Pai, que Deus enviou como revelação do Seu amor para conosco.

Através da catequese nos colocamos em comunhão com Jesus Cristo e conhecemos a sua intimidade e a relação de “amor” da Santíssima Trindade. Aprofundamos a nossa comunhão com Ele e desejamos participar dos sacramentos deixados por Deus. De certa forma fazemos o caminho catecumenal para que possamos entender o porquê estamos nos preparando para receber os sacramentos. A comunidade paroquial deve ser a semelhança da Santíssima Trindade, essa comunhão de “amor” entre os paroquianos.

A formação catequética se dá de maneira diferente em cada cultura; ela deve se adequar ao local, seja o país ou estado na qual a Igreja está inserida. Deve-se usar dinâmicas para que todos participem e, é claro, não deve faltar o estudo da Palavra de Deus.

A formação catequética deve ser permanente, iniciando na preparação para o Batismo e continuando a vida inteira, passando pela preparação para receber a Eucaristia e a Crisma. A catequese ajuda a aprofundar o conhecimento dos mistérios que estão por detrás dos sacramentos, sobretudo da celebração eucarística. A catequese ajuda a celebrá-los, vivê-los e entendê-los na nossa vida de fé. Para poder participar vivamente e não como meros espectadores que estão ali sem entender nada.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Reflexões sobre a catequese

D. Orani João Tempesta
Cardeal Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

O Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, em 25 de junho de 2020, tornou público o novo Diretório para a Catequese. Na apresentação, o presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, arcebispo Dom Rino (Salvatore) Fisichella, assim se manifestou: “Na era digital, 20 anos podem ser comparados, sem exageros, a pelo menos meio século”.

Considerar o que está surgindo
O documento nasceu da necessidade de levar em consideração “com grande realismo o novo que está surgindo, com a tentativa de propor uma leitura que envolvesse a catequese”. É por essa razão que o Diretório apresenta “não apenas os problemas inerentes à cultura digital, mas também sugere caminhos a serem tomados para que a catequese se torne uma proposta que encontre o interlocutor capaz de compreendê-la e ver sua adequação com seu próprio mundo”.

Recordar os Sínodos: “Viver cada vez mais a dimensão sinodal faz com que não esqueçamos os últimos Sínodos que a Igreja viveu", explicou Fisichella. O presidente do Dicastério mencionou em particular o Sínodo sobre a Nova Evangelização e transmissão da fé de 2012, com a consequente Exortação Apostólica do Papa Francisco “Evangelii gaudium” e o 25º aniversário da publicação do Catecismo da Igreja Católica, que diz respeito diretamente à competência do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização.

Conversão pastoral: “A evangelização ocupa o primeiro lugar na vida da Igreja e no ensinamento diário do Papa Francisco”, observou o prelado: “Portanto, a catequese deve estar intimamente ligada à obra de evangelização e não pode ser separada dela. Ela precisa assumir em si mesma as próprias características da evangelização, sem cair na tentação de se tornar um substitutivo para ela ou de querer impor-lhe suas próprias premissas pedagógicas”. A partir disso podemos ver o primado do “primeiro anúncio” e o vínculo entre a evangelização e o catecumenato, “como experiência do perdão oferecido e da nova vida de comunhão com Deus”. De conformidade com D. Fisichella, “é urgente realizar uma ‘conversão pastoral’ a fim de liberar a catequese de certos laços que a impedem de ser eficaz”. O primeiro ponto pode ser identificado no esquema escolar, segundo o qual a catequese de Iniciação Cristã é vivida no paradigma da escola. O segundo é a mentalidade com a qual a catequese é feita a fim de receber um sacramento. Um terceiro é a instrumentalização do sacramento por causa da pastoral. Desse modo os tempos do Sacramento da Confirmação são estabelecidos pela estratégia pastoral para não perder o pequeno rebanho de jovens que não abandonou a paróquia e não pelo significado que o sacramento possui em si mesmo na economia da vida cristã". https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2020-06/fisichella-novo-diretorio-catequese.html, último acesso em 27 de junho de 2020.

A catequese e a ação evangelizadora sempre estiveram no cerne da missão da Igreja. Todo batizado é chamado a ser discípulo missionário de Jesus Cristo e anunciar a boa nova do Evangelho a todas as pessoas que a queiram ouvir. O querigma que é o anúncio de Jesus Cristo é apresentá-lo para aquele que será batizado.

Por isso, o caminho catecumenal tem três fases: aquela que nos prepara para o Batismo, que na maioria das vezes são os pais e padrinhos que participam. A catequese da primeira Eucaristia, em que é apresentada a missão e vida pública de Jesus e Catequese da Crisma, que apresenta as verdades de fé da Igreja e os demais sacramentos instituídos por Jesus.

No caminho catecumenal são transmitidas, sobretudo, as bases da fé, desde a criação do mundo por Deus até a revelação de seu Filho Jesus Cristo. É transmitido o desígnio providencial de Deus, que escolheu assumir a forma humana para nos transmitir o seu amor. Deus ao se revelar quis se manifestar pessoalmente aos homens. Foi um ato da bondade de Deus se revelar aos homens, e dessa maneira deu a possiblidade dos homens participarem da sua natureza.

A catequese deve ser mistagógica, ou seja, adentrar nos mistérios de Cristo e da Igreja e de tudo que os envolve. Aprofundar os sacramentos em sua essência e observar juntos que os sacramentos são um sinal de amor deixado por Deus para nós. Explanar, sobretudo, na catequese batismal que os sacramentos, principalmente o Batismo, são a porta de entrada dos sacramentos (ianua Sacramentorum) da entrada na Igreja e um sinal de reconciliação e aliança com Deus.

A transmissão da revelação se dá por meio do Espírito Santo. Foi por meio dele que Deus revelou o seu Filho Jesus e é por meio do mesmo Espírito Santo que a Igreja revela a “verdade” da revelação transmitida por Jesus. Essa revelação começou com Deus, revelando o seu Filho Jesus, que ao mesmo tempo revela, no Espírito Santo, o amor do Pai, passou pelos apóstolos e segue até os dias de hoje, graças a ação do mesmo Espírito. Por isso o Evangelho continua vivo e atuante, e conseguimos pôr em prática aquilo que nele está escrito.

A evangelização deve fazer parte da nossa vida enquanto cristãos; devemos levar adiante as palavras do Evangelho, praticá-las no dia a dia. Assim como Jesus enviou os apóstolos dizendo: “Ide por todo mundo e a todos pregai o Evangelho”, Ele diz isso hoje também a todos batizados e batizadas: não deixar o Evangelho morrer, mas atrair novos fiéis para a Igreja por meio da Palavra e da experiência de vida. Manter viva a tradição evangélica e os ensinamentos de Jesus.

Que os nossos catequizandos possam ser os futuros catequistas e anunciadores do Evangelho, que eles levem adiante a missão dada por Jesus. Seremos “felizes” a cada vez que o Senhor nos der a alegria de perceber a sua ação no coração que se converte. Ir atrás sempre da “ovelha perdida” e ficarmos felizes ao cuidar das suas feridas, e fazendo com que ela novamente faça parte do rebanho. O processo de conversão é permanente, sempre a cada dia devemos pedir a Deus que nos dê o dom da fé, de sempre acreditar em sua Palavra. A adesão a Jesus Cristo deve se consolidar a cada dia.

A catequese está no cerne da missão evangelizadora da Igreja. Por meio dela é que a Igreja faz o primeiro anúncio aos catecúmenos que receberão o batismo, e na Igreja a catequese permanece durante toda a vida de fé da pessoa, partindo do batismo até a vida adulta. Uma catequese bem-feita permanece enraizada na pessoa até a sua vida adulta, e ela transmite isso às demais pessoas de sua família, de sua comunidade, do seu trabalho.
A catequese é um elemento fundamental da iniciação cristã; ela está estritamente ligada ao Sacramento do Batismo, que é o sacramento da fé, e por meio dele o cristão expressa a sua fé pela primeira vez publicamente, sendo inserido na Igreja. O Sacramento do Batismo é a porta de entrada nos sacramentos e na Igreja. A catequese está presente desde o Batismo até a vida adulta de cada fiel. E cabe àquele que recebeu o primeiro anúncio levar aquilo que ele recebeu adiante, não guardar jamais para si mesmo. Aquele que recebeu a formação catequética pode vir a ser no futuro um catequista e evangelizar novas pessoas para que a catequese seja um processo contínuo de recepção e de entrega.

A catequese tem a finalidade de nos colocar em comunhão com Jesus Cristo, pois nos colocamos na intimidade com Ele, conhecendo com mais afinco o mistério escondido, seus ensinamentos, palavras e ações, e a comunhão de intimidade que ele mantém com o Pai. A finalidade por excelência da catequese é professar a Fé na Santíssima Trindade que é o Pai, Filho e o Espírito Santo. O processo catecumenal só será completo quando eu professar a Fé em Jesus Cristo e por meio da minha fé n’Ele, fruto de um encontro pessoal com a sua Pessoa, professar a fé no Pai e no Espírito Santo.

A catequese nos ensina a participar da vida comunitária junto com os demais membros da comunidade, formando assim uma comunidade de fé. Aqueles que já são batizados acolhem aqueles novos membros que chegam. Por isso no Sábado Santo, na celebração da Vigília Pascal são sempre acolhidos novos fiéis que após um caminho catecumenal recebem os Sacramentos do Batismo, da Crisma e da Eucaristia, e são convidados a fazer parte daquela comunidade de fé. A comunidade paroquial é uma comunhão de fiéis, que juntos professam a mesma fé em Deus.

A Palavra de Deus deve estar no cerne da catequese em todas as suas etapas, pois a Palavra de Deus tem um lugar primordial na vida da Igreja. É uma tradição oral que recebemos através dos profetas, de Jesus e dos apóstolos e que depois por meio do Magistério da Igreja a temos escrita.
Portanto, a transmissão do Evangelho que se dá por meio da catequese é um anúncio de salvação. A palavra que salva e que dá vida e que transforma a pessoa. Muitas vezes a pessoa se encontrava perdida e desamparada, e sem acreditar na salvação, mas o anúncio evangélico que fazemos a essa pessoa por meio da catequese pode indubitavelmente salvá-la. O anúncio da Palavra de Deus é para todos e aqueles que a ouvem e acreditam que por meio dela podem alcançar a salvação.

Por isso faz parte da vida do catequista ser um “anunciador da Palavra”, propagando a transmissão do Evangelho da vida em cada canto que essa Palavra for anunciada, fazendo com que ela chegue a mais pessoas. Cooperam para que a “salvação” dada por Deus por meio da Palavra chegue a mais pessoas.

Cabe aos pastores da Igreja serem os transmissores da Palavra de Deus por excelência. São os sucessores dos apóstolos, e os sacerdotes à frente de suas paróquias os catequistas por excelência. Os diáconos que têm o ministério da Palavra são instruídos a levar essa “Palavra da Salvação” aos doentes e marginalizados. Essa é a missão da Igreja desde a sua origem, levar adiante a Palavra de Deus a todos os cantos e fazer com que o nome de Jesus seja conhecido por todos.

Portanto, muita coragem e empenho a todos os catequistas e aqueles que trabalham com a Palavra de Deus, para que esta Palavra tenha o poder de chegar a mais pessoas. E que a catequese seja sempre o cerne da ação evangelizadora da Igreja, desde o batismo até a vida adulta das pessoas.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Ele caminha conosco

Estamos no tempo da Páscoa! Vivemos o 3º Domingo deste tempo tão belo. Apesar de toda a situação da pandemia em que estamos envoltos, o tempo é para anunciar a vida e a esperança. Mesmo com saudade de nossas comunidades e do encontro de irmãos, a liturgia desse domingo nos conduz para percebermos que o Senhor está no meio de nós, em nossa história, e nos abre os olhos para vê-Lo. Páscoa é o tema central do Ano Litúrgico e da vida cristã. Durante 50 dias seguimos celebrando o mistério central de nossa fé. Essa celebração deve ir confirmando aquilo que queremos viver cada vez mais: se a Quaresma foi um tempo de constatação de nosso pecado, com uma chamada à conversão, a Páscoa se apresenta como um chamado a olharmos para o alto e considerar aquilo que devemos ser, ao que somos chamados a trilhar e caminhar e a encontrar em Cristo a Vida! 


Que a cada dia possamos estar encontrando com o Senhor Jesus Cristo Ressuscitado, caminho da nossa vida, para que buscando as coisas do alto o anunciemos a tantos irmãos e irmãs que encontrarmos pelo caminho, nesta época e neste mundo de hoje. A realidade do encontro com o Senhor pelo caminho vai ser exatamente o que vai nos ser relatado na Liturgia deste domingo. O Evangelho (Lc 24,13-35) vai nos narrar o episódio dos discípulos de Emaús. Tal evangelho retrata bem a caminhada da Igreja na História. Ele retrata a volta para casa de dois discípulos a um povoado chamado Emaús. Neste caminho, os discípulos iam comentando sobre os fatos acontecidos dias anteriores, quando Jesus se aproxima e segue caminho com eles. No diálogo, os discípulos relatam todo o acontecido durante o drama da paixão e da morte, e relatam, com certa descrença, o fato de que algumas mulheres testemunharam ter visto o Senhor. O Divino Caminhante prossegue o diálogo, repassando todas as profecias do Antigo Testamento, indicando que o Messias deveria passar pelo sofrimento para depois entrar na Glória. Chegaram ao seu destino. Enquanto o caminhante ia seguir seu caminho, os discípulos apresentam um pedido para que Ele permaneça com eles: ‘Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!’ (Lc 24,29). 

O Viajante entra e permanece com eles. Sentados à mesa, Jesus toma o pão, o abençoa, parte o pão e compartilha com eles. É aí que os olhos dos discípulos se abrem e reconhecem o Senhor, que desaparece da frente deles. Diante desse fato, exclamam: “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?’ Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém onde encontraram os Onze reunidos com os outros” (Lc 24, 32s). No início do relato há uma constatação de desânimo por parte dos discípulos ante os fatos acontecidos anteriormente. Embora Cristo tivesse feito anúncios de sua Paixão, os discípulos não esperavam a radicalidade daquela entrega redentora, o escândalo da cruz. Além de uma esperança sobrenatural, muitos esperavam que Jesus fosse um libertador político, que iria libertar Israel do jugo do Império Romano e instaurar o Reino de Deus em seu tempo, conforme várias vezes nos recorda a literatura apocalíptica.

Essa esperança se vê decepcionada, principalmente a daqueles que tinham deixado casa, família e a própria cidade para seguir Jesus. Os discípulos estavam voltando para suas casas para cuidar de suas vidas.

O Papa São João Paulo II, por ocasião do Ano da Eucaristia (2004/2005), publicou uma Carta Apostólica inspirada nesta passagem, a Mane Nobiscum, Domine! Fica Conosco, Senhor! (Lc 24, 29) e assim comenta: “Fica conosco, Senhor, pois a noite vai caindo. Foi este o convite sincero que os dois discípulos, viajando para Emaús na tarde do próprio dia da ressurreição, dirigiram ao Viajante que se lhes tinha juntado no caminho. Carregados de tristes pensamentos, não imaginavam que aquele desconhecido fosse precisamente o seu Mestre, já ressuscitado. Mas sentiam ‘arder’ o seu íntimo (cf. Lc 24,32), quando Ele lhes falava, ‘explicando’ as Escrituras.

A luz da Palavra ia dissipando a dureza do seu coração e ‘abria-lhes os olhos’ (cf. Lc 24, 31). Por entre as sombras do dia que findava e a obscuridade que pairava na alma, aquele Viajante era um raio de luz que fazia despertar a esperança e abria os seus ânimos ao desejo da luz plena. ‘Fica conosco’ — suplicaram. E Ele aceitou.

Pouco depois o rosto de Jesus teria desaparecido, mas o Mestre ‘permaneceria’ sob o véu do ‘pão partido’, à vista do qual se abriram os olhos deles” (Cf. http://www.vatican.va/content/johnpaulii/pt/apost_letters/2004/documents/hf_jpii_apl_20041008_mane-nobiscum-domine.html).

Semelhante a eles, nós também muitas vezes nos cansamos, nos decepcionamos e temos desilusões em nossa caminhada, em nosso desejo de querer sempre ter o controle de todas as situações, enquanto não percebemos que Cristo está no meio de nós e é o Senhor da história, e de todas as situações pode tirar um bem muito maior. Diante das várias situações devemos perceber a Palavra de Deus que nos alimenta, nos mostra o caminho e interpreta os acontecimentos de nossa vida.

O gesto de abençoar o pão, partir e compartilhar nos faz recordar aquele gesto feito por Jesus na última ceia e que se repete em cada Eucaristia. Ao partir o pão, os olhos dos discípulos se abriram, seu desânimo se foi, sua esperança que estava desfalecida torna-se agora certeza.

Em meio a tantas lutas do dia a dia, não deixemos de reconhecer o Senhor que caminha conosco e nos faz encontrar sentido em todas as situações. Isso faz a diferença em nossas vidas. Nós cristãos estamos no mundo para sermos testemunhas dessa presença viva em nosso caminhar.

Ao mesmo tempo, a Palavra de Deus na primeira leitura (At 2,14.22-33) é o discurso de Pedro no Dia de Pentecostes, contando sua experiência de encontro com o Senhor e apresentando o Kerigma, as realidades essenciais sobre quem é Jesus, o que fez e ensinou. Hoje, somos também chamados a renovar esse encontro com o Senhor, sempre vivo e sempre novo, e testemunhar a alegria deste encontro, que se manifesta em atitudes de bem para com o próximo. Jesus está vivo e somos testemunhas, assim como foram os discípulos de Jesus. Renovemos a fé na presença do Senhor em nosso meio.

Na segunda leitura (1Pd 1,17-21), Pedro recorda o nosso resgate das trevas por meio do maior tesouro possível, o precioso sangue de Cristo Redentor, o Cordeiro sem mancha. Por meio da Ressurreição, sabemos etemos confirmada a nossa esperança, já que “nossa fé e esperança estão em Deus” (Cf. 1 Pd 1,21).

Na Palavra de Deus deste domingo, vemos de diversas formas a experiência de nossa história, semelhante à experiência dos discípulos de Emaús. Deixemos que a Palavra de Deus afervore nossa caminhada rumo ao Céu! Por mais que tentem ninguém pode tirar a graça da presença do Senhor em nosso meio. Ele está no meio de nós vivo e Ressuscitado!

Que possamos, nesse tempo da Páscoa, reconhecer que, mesmo em meio a tantas lutas, é possível sermos sinais de esperança. Peçamos ao Senhor que nos dê o dom da fé, que aumente a nossa fé e nos faça contagiar cada vez mais este mundo com a Boa Notícia. Somos chamados a ser sinais de esperança aos povo de nosso tempo.

domingo, 5 de abril de 2020

Cristo nos une para celebrar a Semana Santa

D. Orani João Tempesta
Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro

    Neste sábado que antecede a Semana Santa, ao celebrar pelos meios de comunicação a liturgia do dia muitos pensamentos vieram à mente. Nós nos reunimos no amor de Cristo numa assembleia que se espalha pelo Brasil e pelo mundo pelos meios de comunicação. Neste tempo diferente em que vivemos queremos chegar nas igrejas domésticas que ao assistir esta Eucaristia faz a experiência da presença de Cristo. Em nossa celebração rezamos pelo fim da pandemia, suplicando a poderosa intercessão da Bem Virgem Maria, e, também para que a Semana Santa seja o momento de esperança quando anunciamos que a vida vence a morte e, em meio às dores e sofrimentos do mundo, assumir a nossa cruz unida à cruz de Cristo dá sentido à nossa vida e à nossa existência. Rezamos sempre por todos os falecidos para que experimentem a visão beatífica de Deus.
   Rezo de maneira especial pelos doentes do COVID 19, pelos cientistas, médicos, enfermeiros, por todos os que precisam de nossas orações.
    Começamos a Semana Santa, onde concluiremos o tempo da Quaresma e iniciaremos o Tríduo Pascal abrindo a grande celebração da Páscoa do Senhor, de uma maneira inaudita.
   Neste final de semana temos o encerramento da Campanha da Fraternidade que tem como tema: “Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso” e como Lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”(cf. Lc 10,33-34). A Campanha da Fraternidade deve iluminar todo o ano pastoral que ainda continuaremos até a Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo. Cuidar do outro é muitas vezes não se aproximar do outro, não contaminar em tempos de pandemia. Ter cuidado com as pessoas não transmitindo esta doença que não tem cura por enquanto. Cuidar do outro, do que está na rua, das necessidades de cada dia. Como vivem nossos irmãos vulneráveis na situação de rua? Como continuar sendo bons samaritanos e alimentá-los é uma obrigação de cada um de nós. Somos chamados a viver na fé na vida que vence a morte, e que nos configura aos mistérios do Senhor Ressuscitado.
  A Coleta da Solidariedade, gesto concreto da Campanha da Fraternidade, que tradicionalmente é feita no Domingo de Ramos e da Paixão, será feita em outra ocasião indicada pela nossa Conferência Episcopal. A Campanha da Fraternidade termina neste domingo, mas o tema continua sempre. Ter compaixão e cuidar do outro é algo que devemos levar para toda a nossa vida.
   Tenho celebrado nos dias permitidos o novo formulário de Missa aprovado pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos para os tempos de pandemia.
    Com as vésperas de hoje, iniciaremos a Semana Santa, que marca a nossa vida e marca a nossa história. É o centro de nossa liturgia e num tempo muito diferente. Todos somos tocados pela vivência dos mistérios pascais. A Quaresma é encerrada na quinta-feira santa. Com a missa vespertina da instituição da Eucaristia, na Quinta-Feira Santa iremos celebrar o mandamento novo, passando pela ação litúrgica na sexta-feira santa com a Paixão, Morte do Senhor para culminar na vigília solene da ressurreição do Senhor. A solene e jubilosa celebração da Páscoa nos coloca no mistério de celebrar a vida plena. Essa alegria se estende pela Oitava, como um único dia continuados pelos 50 dias do Tempo Pascal.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

O Senhor vem: estejamos preparados

D. Orani João Tempesta
Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro

Neste tempo do Advento é muito importante que nos preparemos para o encontro com o Senhor que “vem”. Ele já veio e Ele virá, mas é importante que nós o reencontremos no hoje de nossas vidas. Uma atitude neste tempo é a celebração penitencial ou confissão. Para isso as Paróquias se preparam e convidam os padres da região para terem oportunidade confessores extraordinários para atenderem a todo o povo.
Antes de nos confessarmos, é necessária uma preparação prévia para examinarmos a nossa consciência e refletir nas nossas práticas diárias, aquilo que de certa maneira fizemos que possa ter ofendido a Deus e ao próximo. Isso se chama “exame de consciência” e depois de fazê-lo podemos ir colocando num papel os pecados para na hora da confissão não ocorrer de esquecermos algum.
A confissão é a oportunidade de pedir perdão a Deus e de receber a sua misericórdia. Antes de se confessar, reserve uns momentos de silêncio para refletir no que você fez de errado, no que possa ter prejudicado outras pessoas e no que você pode fazer para se tornar um cristão melhor. Uma confissão sincera permite a renovação da alma e a sua abertura à graça de Deus.
Uma das maneiras de fazermos um bom exame de consciência é meditar sobre os dez mandamentos da Lei de Deus. Os três primeiros mandamentos remetem na nossa relação com Deus. Em que não fui fiel na minha relação com Deus? E do quarto ao décimo mandamento, se remete na relação com o próximo. Em que ofendi o meu próximo, aqueles que convivem comigo? Podemos trilhar este caminho, na própria Igreja antes da confissão, se possível diante do sacrário. Alguns Salmos da Bíblia de cunho penitencial também podem nos ajudar a refletir em nossos pecados, por exemplo, o Salmo 50 e, juntamente com os dez mandamentos, vamos refletir em nossos pecados, e, com o coração contrito chegarmos diante do sacerdote, que naquele momento representa o próprio Cristo, e nos confessarmos.
Ao fazermos o exame de consciência, é necessário pedir a “Luz do Espírito Santo”, para que venha a nossa mente tudo aquilo que fizemos de errado e que precisamos confessar diante do sacerdote. O Espírito Santo que nos acompanha desde o nosso Batismo e está presente na Igreja, iluminará a nossa consciência e é ele próprio que por meio do sacerdote vai nos dar a absolvição dos pecados.
A confissão, sobretudo, nos ajudará a voltar ao estado de “Graça” que recebemos no Batismo e foi perdida pelo pecado. Por isso, a necessidade de levarmos a sério o sacramento da confissão, preparando-nos previamente por meio de um exame de consciência. Não devemos achar que não temos pecado ou que a confissão está ultrapassada, que só se confessa com “Deus”. É necessário nos confessarmos, de maneira auricular, diante do Sacerdote para recebermos de volta a graça perdida com o pecado.
Ao final da confissão, o Padre vai nos dar uma penitência, que devemos cumprir, pois ela vai concluir, vai ser o gesto concreto daquele exame de consciência que preparamos.
No exame de consciência podemos perguntar também, quando foi nossa última confissão, se eu cumpri os propósitos na minha vida a partir daquela última confissão. Se aquela confissão foi verdadeira, ou seja, se naquela última confissão eu estava realmente arrependido dos meus pecados e não omiti nenhum.
E, além dos pecados referentes aos dez mandamentos da Lei de Deus, temos também os “pecados capitais”, que são sete: preguiça, orgulho, inveja, ira, impureza, avareza e soberba. No nosso exame de consciência, com o auxílio do Espírito Santo, podemos examinar em qual desses caímos.
O exame de consciência também pode ser feito no nosso dia a dia, não só antes de nos confessarmos. Pode ser feito à noite, antes de dormir (isso já nos sugere a oração da noite, as completas), refletindo as nossas ações do dia a dia, e pedindo o perdão a Deus se ofendemos alguém naquele dia. Durante o ato penitencial, na celebração eucarística, nós somos chamados a examinarmos nossas consciências e pedir o perdão a Deus pelos nossos pecados. Isso pode até facilitar na hora em que formos nos confessar, pois fazendo sempre o exame de consciência, fica mais fácil lembrar dos nossos pecados no dia da confissão.
O exame de consciência só pode ser feito com um coração contrito, ou seja, é necessário querer converter o nosso coração ferido pelo pecado, para que ele possa ser transformado pela graça de Deus. E Deus é um “Pai” amoroso que está sempre pronto a nos perdoar.
Portanto, façamos sempre o exame de consciência para meditar nas nossas ações diárias. E sempre que tiver algo que necessite confissão, escreva num papel e procure o sacramento da confissão, para poder estar em plena comunhão com Deus e com os irmãos. Não deixemos para nos confessar apenas nas datas fortes, como o Natal e a Páscoa, mas sempre que tivermos um pecado grave e acharmos por bem confessar.
Que o Bom Deus nos ajude a iluminar nossas consciências, para fazermos um bom exame de consciência, e sempre estar em comunhão com Deus.
“Por isso, como diz o Espírito Santo: “Se escutardes hoje minha voz, não endureceis o coração... Atenção, irmãos! Que nenhum de vós tenhais um coração mau e incrédulo...” (cf. Hb 3).


segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Batizados: sempre missionários

D. Orani João Tempesta
Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro

Estamos em pleno mês das missões. Este terceiro domingo de outubro é o Dia Mundial das Missões e da Obra Pontifícia da Infância Missionária. É quando realizamos em todo o mundo a Coleta para as missões. O Papa Francisco convocou o mundo parta este Mês Missionário Extraordinário que tem como Tema: “Batizados e enviados: a Igreja de Cristo em missão no mundo”.
A intenção do Santo Padre, o Papa Francisco, de proclamar um Mês Missionário Extraordinário para este outubro de 2019 foi com a finalidade de celebrar o centenário da carta Apostólica Maximum Illud de seu predecessor o Papa Bento XV. No dia 22 de outubro de 2017 o Santo Padre enviou uma carta ao Cardeal Fernando Filoni, prefeito da Congregação para Evangelização dos Povos e presidente do comitê das Pontifícias Obras Missionárias (POM), encomendando “a tarefa de preparar este evento, especialmente através de ampla sensibilização das Igrejas particulares, dos Institutos de vida consagrada e Sociedades de vida apostólica, assim como, associações, movimentos, comunidades e outras realidades eclesiais”.
Neste mês, olhando a nossa realidade diocesana, paroquial e comunitária somos convidados a despertar a consciência missionária, com vitalidade pastoral (Cf. EG 15), colocando Jesus no coração da Igreja. Queremos também nos preparar para o próximo tempo em nossa arquidiocese que é de sensibilizar a todos para que tenham a convicção de que uma vez batizados, todos somos enviados, missionários. Batizados: sempre missionários. Eis o desafio que o Documento de Aparecida coloca para nós: missão permanente. Os dias, semanas, meses e ano missionários são para fecundar a perenidade da missão para todo católico.
Este processo de missão evangelizadora passa pela conversão pessoal, comunitária e pastoral a Jesus Cristo crucificado, ressuscitado e vivo em sua Igreja, renovará o ardor e a paixão por testemunhar ao mundo, através da proclamação e da experiência cristã o Evangelho da vida e da alegria pascal (Cf. Lc 24,46-49). A missão começa com o testemunho de vida pessoal daqueles que se deixaram configurar a Cristo Jesus.

Reflitamos sobre alguns aspectos da missão:

Primeiro – Encontro com Jesus. Nossa missão deve ser centralizada na pessoa de Jesus Cristo. A alegria de ser discípulo e missionário de Jesus Cristo. O encontro com Jesus Cristo é motivo de alegria por termos sido enviados com o tesouro do Evangelho. A alegria se torna maior ainda quando podemos comunicar a nossa fé a todos os homens e mulheres feridos pelas adversidades. Conhecer Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber e tê-lo encontrado é o que aconteceu de melhor em nossa vida. (Cf. DAp 29). Esse encontro com Jesus se faz na celebração da Santa Eucaristia e na sua piedosa participação, na escuta, meditação e vivência da Palavra de Deus; no cultivo da oração pessoal e na participação da oração comunitária. A missão da Igreja é evangelizar: A nossa missão é anunciar a todos que Deus nos ama, que é Pai e não ameaça a ninguém, que Ele está perto com seu poder salvador e libertador, que Ele nos acompanha na tribulação, que alenta nossa esperança em meio às provas. O Missionário anuncia sempre as Boas Novas para a humanidade. A Igreja e nós também que somos Igreja, devemos cumprir nossa Missão seguindo os passos de Jesus (Mt 9,35-36), com os mesmos sentimentos de Jesus (Fl 2,8). O discípulo aprende do seu Mestre (Lc 6,20 e Lc 9,58 e Lc 10,4ss). O Missionário enxerga no rosto de Jesus morto e ressuscitado, maltratado pelos nossos pecados e glorificado pelo Pai, o rosto humilhado de tantos homens e mulheres de nossos povos, a quem a Igreja se põe a serviço.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Dia das Mães

D. Orani João Tempesta
Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro

O segundo domingo de maio é um dia dedicado a homenagear as mulheres que acolheram em sua vida a missão sublime de gerar ou acolher um filho para educar. Ser mãe é dom gratuito da bondade de Deus para cada mulher, e também a possibilidade de aceitar trabalhar pelo futuro da humanidade. Uma significativa expressão da fidelidade de Deus no sacramento do matrimônio, que torna o amor de um casal fecundo e multiplicador de vida.
Esse dia nascido por motivações afetivas, mas muito explorado comercialmente nos dias atuais pode ser agora uma oportunidade de valorizar a vida e a família. Principalmente se refletimos sobre a missão importante da mãe (junto com o esposo) de educar seus filhos.
Além de acolher ou procriar fisicamente, gerar um filho para a fé é um compromisso que sinaliza a relação de Deus com seu povo, que é sempre fecunda, capaz de multiplicar a vida, e se dá na plena confiança e entrega à providência divina.
No contexto de um capitalismo selvagem que cada vez mais tenta destruir os valores verdadeiros da humanidade, ser mãe, para além de uma responsabilidade e de um dom, significa manifestar um compromisso com a vida em todas as suas dimensões. Com as pressões atuais contra a dignidade da vida e a propaganda contra a geração de filhos, constatamos que isso é ferir em uma mulher o direito de ser mãe, ferindo também sua mais profunda dignidade e violando aquilo que de mais belo Deus concedeu a uma mulher: o direito de ser mãe e de contribuir assim com a criação, que continua a ser criada e recriada. "Cada criança que nasce é Deus que volta a sorrir para o mundo" diz a tradição popular.
Homenagear as mães nesse dia nos faz recordar da importância da família humana e também da figura de Maria, exemplo de mãe e educadora. Mulher forte e doce, mulher do silêncio, da presença e da esperança que não decepciona. Maria traz consigo as virtudes mais profundas, capazes de fazer de todas as mulheres verdadeiramente mães e mestras, como ela o foi. A humildade, a plena confiança em Deus, seu sim à acolhida do projeto divino em sua vida, conformando-se plenamente a ele, as lutas para proteger o filho, a coragem de lançá-lo no projeto do Pai antes mesmo de "chegar a sua hora", a força para acompanhar o filho no sofrimento e aos pés da cruz, acolher o filho morto ao ser retirado da cruz e contemplar, em seus braços, seu corpo sofrido por amor, a esperança de fazer continuar o projeto de construção do Reino junto com os discípulos amedrontados no cenáculo, a alegria de ver o filho ressuscitado e Senhor para sempre.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Cantai, cristãos, afinal

D. Orani João Tempesta
Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro

Caríssimos amigos e irmãos: Feliz Pascoa! O Senhor ressuscitou verdadeiramente, Aleluia! Verdadeiramente ressuscitou. Esta é a saudação utilizada pelos orientais nestes dias tão importantes e alegres. Nossa liturgia é festiva. Inaugura-se o oitavo dia, o dia que não termina, o dia que o Senhor fez para nós, alegremo-nos e nele exultemos! (Sl 118, 24). Depois de termos vivido os dias de quaresma e o tríduo pascal, a Igreja coloca em nossos corações e em nossos lábios esta alegria, que não pode ser uma alegria que venha somente da exterioridade, mas de um coração renovado e transbordante de alegria porque se reconciliou com o Senhor.
Nossas lutas, dificuldades e problemas continuam aqui e acolá. As coisas ao redor não se transformam automaticamente. Mas nós nos colocamos ante as coisas como alguém que se renovou interiormente, e por isso mesmo se torna sinal da alegria divina e da misericórdia de Deus. Mesmo quando os discípulos de Jesus estavam na prisão ou os mártires eram conduzidos para sua oferta final, eles ali cantavam os louvores de Deus, ali anunciavam Jesus Cristo Ressuscitado. Essa celebração deve se tornar cada vez mais presente em nossos corações para que possamos proclamar sinceramente que aquele que por nós morreu e foi sepultado, está vivo hoje, entre nós, e nós somos suas testemunhas.
Se a liturgia deste dia é solene, muito mais deve ser a nossa própria vida. Nosso coração transbordante de alegria independe das circunstâncias ao nosso redor. Somos nós que somos renovados e transformados para que contagiemos o mundo com a alegria pascal.
Iniciamos a oitava de Páscoa e o tempo Pascal, e teremos 50 dias de celebração para que possamos contemplar, aprofundar e fazer vida as realidades do mistério que estamos celebrando e que agora faz com que busquemos as coisas do alto, as coisas de Deus. O mistério da Páscoa é central em nossas vidas; norteia não somente o ano Litúrgico, mas toda a nossa vida. Se Cristo não ressuscitou, vã é nossa fé. Que o Senhor nos dê a possibilidade de experimentar o que significa que Cristo Ressuscitou e que possamos também traduzir este significado, para que as pessoas ao nosso redor entendam o que significa Ressurreição, deixar a vida velha e viver a vida nova, vencer a morte e vencer o pecado.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Quaresma: Tempo de Oração, Jejum e Esmola

D. Orani João Tempesta
Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro

Estamos a caminho do final do tempo da Quarema, este tempo favorável que o Senhor nos concede viver na sua graça e no seu amor. É um bom momento de aprofundarmos esse belo momento que vivemos. Reflitamos o que Jesus pede para cada um de nós neste tempo favorável –  que nos convida a meditar e refletir à luz da fé Cristã, quanto ao sentido deste tempo litúrgico na vida da Igreja no coração dos fiéis. 
A Quaresma, é este tempo forte que a liturgia da Igreja, nos chama e nos impulsiona a viver com intensidade a pratica da oração jejum e a esmola como nos foi dito ao iniciar este tempo na quarta feira d4e cinzas. Estes quarenta dias são para a preparação da solenidade da Páscoa do Senhor.  
A espiritualidade quaresmal é um convite para melhor vivermos este tempo de graça do Senhor. Esta reflexão pode ser útil para a vivência da Quaresma em nossas comunidades eclesiais.
Infelizmente, em nosso mundo cheio de barulhos e palavras exterior, com informações desconsertadas a cada segundo e com muitas “fakes News”, de tantos meios de comunicação que invadem nossos lares e nosso íntimo, corremos o risco de deixar passar esta graça especial deste tempo favorável. Muitas vezes por conta destes barulhos exterior não escutamos a voz do Senhor que fala ao coração, e, portanto, o tempo da Quaresma passa despercebido.
A Quaresma é um itinerário de fé, uma oportunidade favorável para intensificar nossas ações concretas de caridade, com autêntica partilha e solidariedade. Iluminados por Sua Palavra, perdoados por sua Misericórdia, Jesus nos ensina a olhar o mundo com os olhos da fé e amá-lo com o coração.
O Papa Francisco em sua mensagem para este tempo lembra que somente olhando para Jesus, aprenderemos melhor a olhar com os olhos da fé e contemplar a beleza da criação com ternura e paixão. Ainda “se às vezes a caridade parece desaparecer em muitos corações humano, é verdade que no coração de Deus ela jamais desaparecerá”.
A Quaresma é uma jornada espiritual que envolve os cristãos no mesmo dinamismo da fé esperança e caridade. Este tempo é favorável para testemunhar aos homens e mulheres, do nosso tempo, o reflexo do amor de Deus pelo qual somos os destinatários graças à Páscoa.