D.
Orani João Tempesta
Cardeal
Arcebispo do Rio de Janeiro
Estamos a caminho do final do tempo da
Quarema, este tempo favorável que o Senhor nos concede viver na sua graça e no
seu amor. É um bom momento de aprofundarmos esse belo momento que vivemos.
Reflitamos o que Jesus pede para cada um de nós neste tempo favorável –
que nos convida a meditar e refletir à luz da fé Cristã, quanto ao
sentido deste tempo litúrgico na vida da Igreja no coração dos fiéis.
A Quaresma, é este tempo forte que a liturgia
da Igreja, nos chama e nos impulsiona a viver com intensidade a pratica da
oração jejum e a esmola como nos foi dito ao iniciar este tempo na quarta feira
d4e cinzas. Estes quarenta dias são para a preparação da solenidade da Páscoa
do Senhor.
A espiritualidade quaresmal é um convite para
melhor vivermos este tempo de graça do Senhor. Esta reflexão pode ser útil para
a vivência da Quaresma em nossas comunidades eclesiais.
Infelizmente, em nosso mundo cheio de
barulhos e palavras exterior, com informações desconsertadas a cada segundo e
com muitas “fakes News”, de tantos meios de comunicação que invadem nossos
lares e nosso íntimo, corremos o risco de deixar passar esta graça especial
deste tempo favorável. Muitas vezes por conta destes barulhos exterior não
escutamos a voz do Senhor que fala ao coração, e, portanto, o tempo da Quaresma
passa despercebido.
A Quaresma é um itinerário de fé, uma
oportunidade favorável para intensificar nossas ações concretas de caridade,
com autêntica partilha e solidariedade. Iluminados por Sua Palavra, perdoados
por sua Misericórdia, Jesus nos ensina a olhar o mundo com os olhos da fé e
amá-lo com o coração.
O Papa Francisco em sua mensagem para este
tempo lembra que somente olhando para Jesus, aprenderemos melhor a olhar com os
olhos da fé e contemplar a beleza da criação com ternura e paixão. Ainda “se às
vezes a caridade parece desaparecer em muitos corações humano, é verdade que no
coração de Deus ela jamais desaparecerá”.
A Quaresma é uma jornada espiritual que envolve
os cristãos no mesmo dinamismo da fé esperança e caridade. Este tempo é
favorável para testemunhar aos homens e mulheres, do nosso tempo, o reflexo do
amor de Deus pelo qual somos os destinatários graças à Páscoa.
Diante desse amor, ninguém permanece
indiferente, todos podem responder ao Amor com amor, com uma vida totalmente
convertida, sempre convertida no amor fraterno.
A
celebração da Páscoa, do ponto vista histórico, principalmente nos primeiros
três séculos da vida cristã, não teve um período específico de preparação, tal
como hoje, somente séculos depois a Igreja começou a sua organização
estrutural, para melhor fazer memória do itinerário espiritual de Cristo,
dividindo os períodos de celebração da fé através da liturgia.
A comunidade cristã primitiva vivia tão
intensamente o compromisso cristão, que culminava com o testemunho do martírio,
por isso não sentia a necessidade de um período particular para renovar a
conversão, o batismo era o sinal mais visível deste compromisso.
Após
o decreto de Constantino dando liberdade religiosa aos cristãos, por volta do
ano 313, a Igreja sente a necessidade de estabelecer um período para chamar os
fiéis a uma maior coerência com o batismo; assim nascem as prescrições
penitenciais relativas ao período imediatamente anterior à Páscoa.
Também no Ocidente, temos algum testemunho
direto dessas prescrições; a peregrinação Egeria do ano 385, para a Espanha;
Santo Agostinho para a África; e Santo Ambrósio para Milão. No entanto, foi
somente no final do século IV, que o período denominado Quaresma aparece melhor
estruturado como a conhecemos hoje; um período de quarenta dias caracterizados
por jejum e outras práticas penitenciais, com o objetivo de melhor preparar os
cristãos para a Páscoa.
A Quaresma é um convite à intimidade mais
profunda com o Senhor, e ao mesmo tempo, é uma graça especial que a tradição
cristã nos concede neste caminho de preparação para a Páscoa, o centro do ano
litúrgico, o mistério fundante da fé cristã. A Quaresma é, portanto, um
itinerário de fé que tem um objetivo preciso: a Páscoa.
A Quaresma encontra sua razão no grande
mistério da Páscoa. Este tempo é propício para a o exercício da caridade
fraterna que unida à oração nos torna imitadores do redentor, vivendo a
radicalidade do Evangelho no cotidiano da vida.
A partir do Evangelho de Mateus (Cf. Mt
6,1-6.16-18) página que é proclamada na quarta-feira de cinzas, a Igreja, desde
os tempos imemoriais, articulou a prática da penitência quaresmal em uma tríade
de obras: o jejum, a oração e esmola; linguagem emblemática para dizer
realidade mais ampla que o termo usado.
Como nos ensina a tradição patrística, essas
três obras devem ser vistas de maneira complementar. No século V, São Pedro
Crisológo afirmava: “Estas três coisas, oração, jejum, misericórdia, são uma e
recebem vida uma da outra”.
Assim, o jejum é a alma da oração, e a
misericórdia é a vida do jejum. Ninguém os divide porque eles não podem ser
separados. Aquele que tem apenas um ou não tem todos os três juntos, não tem
nada.
No contexto da Quaresma, é importante que
essas obras penitenciais assumam uma conotação eclesiástica, especialmente no
contexto Eucarístico ponto ápice da fé e da liturgia da Igreja. Devemos
viver desta forma, para evitar o risco de uma prática individualista, quase
independentemente da Eucaristia dominical.
O tempo da Quaresma vem relembrar esta nossa
vocação comum, somos o povo de Deus a caminho, será uma ocasião para reorientar
nosso olhar para Jesus, o Bom Pastor, que guia os passos da Igreja e fortalece
os laços de unidade e comunhão entre nós, na consciência de que é necessário
investir em uma Igreja em saída, peregrina próxima de seu povo, as vezes é
necessário ir onde está o povo, se quisermos encontrar os irmãos e irmãs nos
lugares da vida cotidiana, e assim iluminar suas expectativas e esperanças.
Finalmente, olhar para Jesus deve significar
encontrar-se como discípulos que crescem em comunhão e caminham juntos, guiados
pelo Mestre, com o cajado do peregrino nas mãos e com o pão da Palavra na
bolsa, a única verdadeira riqueza que a Igreja possui.
Na Quaresma temos alguns momentos fortes: 1 –
A celebração da Via Sacra, em comunidade ou individual, nas sextas-feiras; 2 –
Os encontros de reflexão da Campanha da Fraternidade; 3 – A Confissão
auricular, preceito que todo católico deve cumprir pelo menos uma vez por ano
pela Páscoa da Ressurreição; 4 – A esmola com os gestos de partilha generosa; 5
- gesto concreto do jejum que vamos fazendo nas sextas-feiras e da abstinência
de carne que vamos, livremente, aderindo para livrar nosso corpo das paixões
desordenadas; 6 – A coleta da Campanha da Fraternidade no Domingo de Ramos, em
favor das obras sociais da Arquidiocese e do Fundo Nacional de Solidariedade.
Sejamos generosos nestes gestos e momentos fortes rumo à Páscoa.
Portanto, vamos viver intensamente este tempo
oportuno na alegria da fé, unidos como família de Deus, irmãos e irmãs, este é
o nosso compromisso cristão, a graça que pedimos ao Senhor nesta Quaresma é que
possamos abrir o coração e nos preparar para a grande Solenidade da Pascoa do
Senhor.
Que Maria, a Senhora do silêncio e da
ternura, continue nos acompanhando neste tempo de deserto, itinerário de fé na
prática do jejum, da oração e da esmola a caminho da Páscoa.
