
Em sua peregrinação pelo deserto, um viajante ouve um estranho ruído, um murmúrio triste e plangente, trazido pelo vento. Curioso, ele pergunta ao companheiro de viagem o que era aquilo. O beduíno simplesmente lhe responde que é apenas o deserto se lamentando de não ser mais um terreno fértil, um campo florido, um prado verdejante. Algo semelhante brota hoje de uma multidão de corações, que, tendo se afastado de Deus, abandonado sua Palavra e esquecido seu amor, transformou-se em terra árida, como as areias estéreis do deserto.
Em nossos dias, o fenômeno da desertificação nunca esteve tão em voga. Fala-se na destruição da floresta amazônica, cujo desmatamento desordenado põe em risco a biodiversidade de um patrimônio incalculável para toda a humanidade.
Preocupante também se encontra o estado do coração humano, que sofre do mesmo processo de desertificação. Cada vez mais se torna difícil o cultivo do amor e da bondade em meio a tanta violência e sofrimento. O mundo consumista e individualista, que destrói a natureza e onde o que vale é o cada um por si, nos deixa cada vez mais distantes uns dos outros e de Deus.
O Advento, este tempo com que hoje iniciamos o ano litúrgico da Igreja, nos questiona, nos chama a atenção para os sinais dos tempos em nossa vida pessoal; nos convida, na expectativa do Natal, a um profundo exame de consciência e, na espera do Senhor que vem, a prepararmos nossa casa para alguém que, longe de ser um hóspede, é o dono e Senhor do mundo e da nossa vida. O pedido de Isaías – “Ah, se rompesses os céus e descesses!” – já foi atendido. Basta que abramos as portas do nosso coração. Como dizia Santo Agostinho: “Na procura por Deus, é Ele quem se adianta e vem ao nosso encontro.”