Retiro Arquidiocesano da Iniciação Cristã

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segunda-feira, 8 de junho de 2015

Acolher com alegria a misericórdia

D. Orani João Tempesta
Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro

Depois do tempo pascal, celebramos a Santíssima Trindade e a festa de “Corpus Christi”, quando aqui no Rio de Janeiro demos uma demonstração bonita de unidade e de caridade, que brotam da esperança de caminharmos sempre com Cristo. Com o Senhor Eucarístico, demos testemunho da nossa fé. 
Estamos no 10º Domingo do Tempo Comum, chamado “durante o ano”. Essa época nos ajuda a continuar na história anunciando o mistério pascal do Senhor.  Jesus foi por toda a Galileia pregando o Evangelho nas sinagogas e expulsando os demônios. O fato despertava tanto entusiasmo entre o povo, que os escribas, sem poderem negar tal evidência e não querendo reconhecer em Jesus o Messias, atribuem o Seu poder à influência de Belzebu. E o Mestre reage a esta insinuação: “Se, portanto, satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não poderá sobreviver, mas será destruído” (Mc 3, 26).
Jesus coloca as coisas no seu lugar! Nele trava-se o grande combate. Jesus é mais forte do que o príncipe das trevas. Veio a este mundo para combatê-lo. Vence-o no deserto após o seu batismo; vence-o expulsando os demônios. É Ele o homem forte que guarda a casa. Tudo isso Ele o faz pelo Espírito Santo!
O Senhor convida os “mestres da lei” a fazer uma consideração simples: se alguém expulsa o demônio, isto quer dizer que é mais forte do que ele. É uma exortação a mais em reconhecer em Jesus o Deus “forte”, o Deus que com o Seu poder liberta o homem da escravidão do demônio. Terminou o domínio de satanás: o príncipe deste mundo está a ponto de ser expulso. A vitória de Jesus sobre o poder das trevas, que culmina com Sua Morte e Ressurreição, demonstra que a luz está já no mundo. Disse-o o próprio Senhor: “Agora é o julgamento deste mundo. Agora que o príncipe deste mundo vai ser lançado fora” (cf. Jo 12, 31-32).

Por isso, acreditar no poder de Cristo Jesus é confiar na misericórdia e no perdão de Deus. Ele tem o poder de perdoar pecados, pois por Sua morte e ressurreição há de vencer definitivamente a satanás e o pecado. Este é, na verdade, o maior adversário do ser humano, pois o afasta da comunhão com Deus.
“Saíram para agarrá-Lo, porque diziam que estava fora de si” (Mc 3, 21). Alguns de seus parentes, deixando-se levar por interpretações humanas, viam a absorvente dedicação de Jesus ao apostolado como um exagero, explicável – em sua opinião – apenas por uma perda de juízo. Ao ler estas palavras do Evangelho, pensemos no que Jesus se submeteu por nosso amor: disseram que Ele tinha “perdido o juízo”. Muitos santos, a exemplo de Cristo, passarão também por loucos, mas serão loucos de amor, loucos de amor a Jesus Cristo!
Além disso, o Evangelho deste domingo apresenta-nos a questão do pecado contra o Espírito Santo. O Catecismo da Igreja Católica dá a interpretação autêntica dessa passagem com as seguintes palavras: “A misericórdia de Deus não tem limites, mas quem se recusa deliberadamente a acolher a misericórdia de Deus pelo arrependimento rejeita o perdão de seus pecados e a salvação oferecida pelo Espírito Santo. Semelhante endurecimento pode levar à impenitência final e à perdição eterna” (Cat. 1864). No fundo, o pecado contra o Espírito Santo é um endurecimento interior que não permite à pessoa se arrepender dos próprios pecados. Porém, uma pessoa poderia se arrepender nos últimos momentos de sua existência e ser alcançada pela salvação. Por isso, a resposta a essa questão – foi ou não um pecado contra o Espírito Santo? – continuará enquanto não chegar o Juízo Final, conhecida somente por Deus e pela pessoa em questão.
Ao final do texto deste domingo, comunicam a Jesus que a Sua Mãe e alguns parentes vieram à sua procura. Jesus respondeu-lhes: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc 3, 35). Todos aqueles que, seguindo o Seu exemplo, abraçam a vontade do Pai e a cumprem, ficam unidos a Ele com vínculos tão íntimos, só comparáveis aos mais estreitos laços familiares.
Por isso, a Igreja recorda-nos que a Santíssima Virgem “acolheu as palavras com que o Filho, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática; coisa que Ela fazia fielmente” (Lumen Gentium, 58).
O Senhor, pois, nos ensina também que segui-Lo nos leva a compartilhar a Sua vida até tal ponto de intimidade que consistiu um vínculo mais forte que o familiar. A verdadeira família de Jesus é formada pelos que estão ao redor Dele e que fazem a vontade de Deus. Maria era mãe duplamente: porque gerou Jesus e porque, mais do que ninguém, soube fazer sempre a vontade de Deus.