Retiro Arquidiocesano da Iniciação Cristã

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O leigo na Igreja

D. Orani João Tempesta
Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro

No ano passado comemoramos os 50 anos da conclusão do Concílio Vaticano II. Foi um evento assistido pelo Espírito Santo que marcou o nosso século XX.  Como consequência muitos temas que resultaram em documentos conciliares foram novamente comentados e aprofundados. Um desses temas é sobre o Cristão Leigo. Temos oportunidade de celebrar todos os anos dois momentos para essa reflexão: no mês de agosto, refletindo sobre a vocação do leigo nos vários ministérios na Igreja, e em novembro, na festa solene de Cristo Rei, quando comemoramos o Dia do Leigo, recordando a sua missão no mundo.
O Papa Francisco enviou uma mensagem no dia 12 de novembro do ano passado aos participantes de uma jornada de estudo, promovida pelo Pontifício Conselho para os Leigos, com a colaboração da Pontifícia Universidade Santa Cruz, sobre o tema: “Vocação e missão dos leigos”. Este encontro procurou comemorar o 50º ano do decreto conciliarApostolicam Actuositatem.
Os leigos são todos os cristãos, exceto os membros das Sagradas Ordens ou do estado religioso reconhecido na Igreja, isto é, os que foram incorporados a Cristo pelo Batismo, que formam o Povo de Deus, e que participam da função sacerdotal, profética e régia de Cristo.
Os cristãos leigos estão na linha mais avançada da vida da Igreja, e devem ter uma consciência clara, não somente de pertencerem à Igreja, mas de “serem” Igreja, isto é, a comunidade dos fiéis na Terra sob a direção do chefe comum, o Papa, e dos Bispos em comunhão com eles. Eles são a Igreja! Acredito que o grande desafio do Cristão Leigo é no seguimento de Cristo no meio do mundo, “sentir com a Igreja” e agir com coerência segundo o Evangelho.
O leigo tem como vocação própria procurar o Reino de Deus, exercendo funções no mundo, no trabalho, mas ordenando-as segundo o plano e a vontade de Deus. Cristo os chama a ser “sal da terra e luz do mundo”. O cristão leigo chega aonde o sacerdote não chega. Ele deve levar a luz de Cristo aos ambientes de trevas, de pecado, de injustiça, de violência etc. Assim, no mundo do trabalho, levando tudo a Deus, o leigo contribui para o louvor do Criador. Ele constrói o mundo pelo trabalho, e assim coloca na obra de Deus a sua assinatura.  Torna-se co-criador com Deus.

O Concílio Ecumênico Vaticano II resgatou a atividade do leigo na Igreja: “Os leigos que forem capazes e que se formarem para isto podem também dar sua colaboração na formação catequética, no ensino das ciências sagradas e atuar nos meios de comunicação social.” (CIC §906).
Sendo assim, todos os leigos são encarregados por Deus do apostolado, em virtude do Batismo e da Confirmação,“eles têm a obrigação e gozam do direito, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é por meio deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que sem ela o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito”. (CIC §900).
“Os leigos podem também sentir-se chamados ou vir a ser chamados para colaborar com os próprios pastores no serviço da comunidade eclesial, para o crescimento e a vida da mesma, exercendo ministérios bem diversificados, segundo a graça e os carismas que o Senhor quiser depositar neles.” (CIC §910).
O Código de Direito Canônico dá ao leigo o direito e o dever de dar a sua opinião aos pastores: “De acordo com a ciência, a competência e o prestígio de que gozam, têm o direito e, às vezes, até o dever de manifestar aos pastores sagrados a própria opinião sobre o que afeta o bem da Igreja e, ressalvando a integridade da fé e dos costumes e a reverência para com os pastores, e levando em conta a utilidade comum e a dignidade das pessoas, deem a conhecer essa sua opinião também aos outros fiéis”. (CIC §907; Cânon 212,3).
O Papa Francisco disse que a política anda suja porque os cristãos se afastaram dela. E pede para que dela participem. Vimos o povo nas ruas do Brasil reclamando de tanta sujeira na vida pública, tanta corrupção, imoralidade e malversação do dinheiro público. Isso ocorre porque os cristãos leigos pecam por omissão política. Quantos cristãos dão seu voto a pessoas que não são idôneas, que não comungam com os valores cristãos! Muitos leigos ainda “vendem” o seu voto e a sua consciência por um favor recebido.
São João Paulo II, na “Christifidelis laici”, disse que “os fiéis leigos não podem absolutamente abdicar da participação na «política», ou seja, da múltipla e variada ação econômica, social, legislativa, administrativa e cultural, destinada a promover orgânica e institucionalmente o bem comum… a opinião muito difusa de que a política é um lugar de necessário perigo moral, não justificam minimamente nem o cepticismo nem o absenteísmo dos cristãos pela coisa pública” (n.42).
O Papa Emérito Bento XVI pediu: “Reitero a necessidade e urgência de formação evangélica e acompanhamento pastoral de uma nova geração de católicos envolvidos na política, que sejam coerentes com a fé professada, que tenham firmeza moral, capacidade de julgar, competência profissional e paixão pelo serviço ao bem comum.”(Discurso ao CPL, Vaticano, 15 de novembro de 2008).
O Papa Francisco frisa um elemento fundamental que pertence aos ensinamentos do Concílio Vaticano II: o fato de que "em virtude do Batismo recebido, os fiéis leigos são protagonistas na obra de evangelização e promoção humana". "Incorporado à Igreja, cada membro do Povo de Deus é inseparavelmente discípulo e missionário. É preciso sempre reiniciar dessa raiz comum a todos nós, filhos da Mãe Igreja", ressalta o Papa.
Agradeço de coração ao generoso trabalho de todos os cristãos leigos de cuja missão sou testemunha. Eles são fundamentais no anúncio do Evangelho e no testemunho da caridade e da misericórdia de Cristo. Sintam-se todos abraçados pelo meu afeto de Pastor e com o meu penhorado agradecimento a tanta generosidade silenciosa que todos vocês, generosamente, fazem em favor de toda a Igreja, particularmente em nossa amada Arquidiocese.

Fonte: http://arqrio.org/formacao/detalhes/1079/o-leigo-na-igreja